sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Movimento de Oxford (1833-1854)




Foto: Catedral de Oxford

Em 1833 a Europa estava sofrendo o impacto de uma revolução política e industrial. A Revolução Francesa e as guerras napoleônicas desafiavam todas as instituições e varriam os últimos vestígios do feudalismo, aspirando algo mais consistente e nobre.

A Igreja Anglicana havia servido desde seu início a um povo basicamente agrário e rural. Agora, controlada pelas leis do Parlamento, não desfrutava a liberdade desejada. Até mesmo para a administração de seus assuntos internos tinha que recorrer aos bispos da Câmara dos Hordes. O Parlamento, cada vez mais secular e menos religioso, havia realizado diversas mudanças, não esperadas, na estrutura da Igreja.

Um pequeno grupo de clérigos residentes na Universidade de Oxford se reuniu para fazer frente a essa situação.

O primeiro a estimular o movimento foi John Keble, com um inspirado sermão intitulado “A apostasia nacional ”, pregado na Igreja de Santa Maria em Oxford, em 14 de julho de 1833, comentando o projeto de Reforma no Parlamento de suprimir 10 dos 22 bispados existentes na Irlanda. No sermão, Keble exigia respeito para com a Igreja e que esta fosse considerada não como uma instituição nacional, e sim como instrumento da vontade divina. Afirmava que era pecado a intromissão secular na autoridade pastoral dos bispos. Com este sermão se deu início ao “Movimento de Oxford”, também conhecido com “Movimento Tratariano”, devido aos folhetos (Tracts) que imprimia e divulgava. Esse grupo de sacerdotes ligados à Universidade de Oxford iniciou uma campanha revolucionária escrevendo folhetos ou panfletos que levaram a uma renovação e os temas tratados nesses folhetos eram os seguintes: instrução sobre a importância da oração e da observação do Ano Litúrgico Eclesiástico, o jejum, a história da Igreja, a importância da ordem ministerial, a sucessão apostólica, os sacramentos (especialmente a Eucaristia). Sobre tudo, insistiam nos ministérios sacerdotal católico e apostólico.

Os clérigos mais famosos deste movimento foram: John Keble (1792-1866), Richard Hurrel Frouede (1803-1836), Edward Bouverie Pusey (1800-1882) e John Henry Newman (1801-1890).

Tudo o que ensinavam nesses folhetos também era posto em prática por eles. A santa eucaristia foi estabelecida como o ato central da adoração, enfatizando-se a presença real. Empreenderam esforços pela revisão da liturgia e conseguiram que a Igreja tivesse maior poder de decisão na eleição dos bispos. Também apoiaram o restabelecimento das ordens religiosas suprimidas por Henrique VIII.

Edwar B. Pusey redescobriu a dimensão comunual da Igreja. Ensinou que Deus queria salvar o homem e a mulher não como indivíduos, mas como povo. Diga-se de passagem, esse foi um grande princípio enfatizado a partir dos anos sessenta do século passado. Pusey enfatizou muito a importância da Eucaristia e, em geral, insistiu que a vida sacramental era a herança mais nobre da comunidade cristã.
Este movimento influenciou profundamente a Igreja Episcopal estabelecida na América. Os mais importantes simpatizantes norteamericanos entre os bispos foram: Levi Sillima Ives, George Washington Doane, John Henry Hopkins, Jackson Kemper, William Rollinson Whittingham, Nicholas Hamner Cobbs; entre os presbíteros podemos mencionar Samuel Seabury, editor do  Churchman , William Crorwell e James Lloyd Breck.

Tão forte foi o movimento para o lado católico que alguns sacerdotes e bispos decidiram retornar à Igreja Católica Romana. Entre eles, o mais famoso foi John Henry Newmann. Um clérigo chamado John Murray Forbes, após dez anos na Igreja romana retornou à Igreja Episcopal em 1859, dizendo que Roma exigia “o sacrifício da liberdade individual”.

Vida dos clérigos do Movimento de Oxford

Ingleses:  

John Keble (1866)

A cada manhã é novo o amor
O acordar e o levantar nos provam
Que no sono e na escurdião fomos cuidados
E que a viver, querer e pensar, fomos restaurados.

Essas palavras de John Keble foram extraídas do ciclo de poemas intitulado O ano cristão (1827), que ele escreveu para restaurar entre os anglicanos um profundo apresso pelo Ano Eclesiástico. A obra teve noventa e cinco edições, mas não era esta a fama que buscava: seu ardente desejo era ser um fiel pastor, que encontra satisfação nos serviços diários, nas classes de confirmação, nas visitas a escolas rurais e na volumosa correspondência com as pessoas que buscavam aconselhamento espiritual.

Keble nasceu em 1792 e recebeu a educação fundamental na própria casa paroquial de seu pai. Aos quatorze anos recebeu uma bolsa para estudar em Oxford onde se graudou em 1811 com notas altíssimas. Trabalhou na universidade em vários cargos, inclusive dez anos como professor de poesia. Depois de sua ordenação em 1816 serviu em várias paróquias rurais e finalmente se estabeleceu em 1836 na vila de Hursley, perto de Winchester, onde permaneceu trinta anos como sacerdote.

A Inglaterra estava passando por uma turbulenta mudança de uma sociedade rural para uma sociedade urbana e industrial. Entre as reformas dos anos 1830, o Parlamento decidiu abolir dez bispados anglicanos na Irlanda. Keble atacou com toda força essa decisão porque minava a autoridade e autonomia da Igreja.

Com um sermão chamado  A apostasia nacional , pregado em 1833, estimulou o Movimento de Oxford. Os colegas que se aliaram a ele começaram a publicar uma série de folhetos chamados “Tratados para nosso Tempo” – de onde veio o nome popular de “tratarianos”. Eles buscavam renova a Igreja de acordo com a herança sacramental primitiva. John Henry Newman foi o líder intelectual do movimento, Edward Pusey o profeta da vida devocional e John Keble a inspiração pastoral.

Ainda que fortemente criticado, permaneceu fiel à Igreja. Três anos após sua morte foi fundado um colégio com seu nome em Oxford “para educar com fidelidade estrita a Igreja da Inglaterra”. Sua data é comemorada em 29 de março.  

Eduardo Bouverie Pusey (1882)

Pusey foi um dos líderes mais destacados do Movimento de Oxford. Nascido em 22 de agosto de 1800, perto de Oxford, Pusey passou toda sua vida de estudo nesta universidade como Catedrático Real de hebraico e como cônego da faculdade Christ Church. Em 1833 uniu-se a Keble e Newman na elaboração dos Tratados que divulgavam o movimento.

No entanto, a atividade pela qual mais se destacou foi a pregação de conteúdo católico e zelo evangélico pelas almas. Para muitos de seus contemporâneos mais influentes, isso parecia perigosamente inovador. Um sermão pregado em 1843 na universidade sobre “a santa eucaristia, consolo do penitente”, fez com que ele fosse condenado sem oportunidade de defesa, e proibido de pregar durante dois anos, pena que suportou com muita paciência. Desta maneira, os princípios que defendia, tais como a presença real de Cristo na Eucaristia, chegaram ao conhecimento do público. O sermão pronunciado em outra universidade sobre a “absolvição completa do penitente” motivou o ressurgir da confissão privada (auricular) na Comunhão Anglicana.

Quando Newman passou para a Igreja de Roma em 1845, a adesão de Pusey à igreja da Inglaterra e sua lealdade detiveram muitos que pretendiam seguir a Newman.

Após a morte de sua esposa em 1839, Pusey dedicou grande parte do patrimônio de sua família para fundar igrejas para os pobres, e muito de seu tempo na criação de irmandades femininas. Em 1845 fundou a primeira irmandade anglciana de mulheres desde a época da Reforma. Pusey morreu no convento dessa irmandade, o Priorato de Ascot, no condado de Berk em 16 de setembro de 1882. Seu corpo foi levado para a faculdade Christ Church e sepultado na nave da catedral de Oxford. A  Casa de Pusey , uma casa de estudos fundada depois de sua morte, perpetua seu nome em Oxford. Sua erudição e retidão deram estabilidade ao Movimento de Oxford. Sua data é comemorada em 18 de setembro, dia do seu sepultamento.

Americanos:

Jaime Lloyd Breck (1876) foi um dos missionários mais importantes da Igreja Episcopal no século XIX, conhecido como “o apóstolo do deserto”.

Breck nasceu na Filadélfia em 1818 e como outros importantes clérigos de seu tempo, foi bastante influenciado pela devoção pastoral, a preocupação litúrgica e a ênfase sacramental de William August Muhlenberg. Breck matriculou-se na escola de Muhlenberg em Flushing, Nova York, antes de transferir-se para a Universidade da Pennsylvania. Muhlenberg o estimulou quando tinha 16 anos de idade, a se dedicar à obra missionária. A vocação se cristalizou quando Breck, junto com outros três companheiros do Seminário Geral, fundou uma comunidade religiosa em Nashotah, Wisconsin, em 1844.

Nashotah se transformou em um centro de observância litúrgica, cuidado pastoral e educação. Seus membros visitavam as aldeias e famílias isoladas onde estabeleciam pontos missionários, despertando grande vigor na Igreja Episcopal da região. Nashotah Haouse floresceu e se transformou em um dos seminários da Igreja Episcopal.

Posteriormente, Breck se mudou para San Pablo, Minnesota, onde iniciu o trabalho da Igreja Episcopal. Às margens do lago “Gaviota”, organizou a missão de Saint Columba para os índios ojibwa. Seu ideal era formar sacerdotes nativos dentre os próprios índios.  

Em l855 Breck se casou e em 1858 se estabeleceu em Faribault, Minnesota, onde seu trabalho ficou associado a uma das primeiras catedrais fundadas na Igreja Episcopal dos Estados Unidos.

Também fundou a escola de Teologia Seabury, que mais tarde se associou ao Seminário Teológico Ocidental, transformando-se em Seabury-Western. Em l867 Breck foi para a California, inspirado sobretdo pela idéia de fundar uma nova escola de teologia. As escolas que abriu em Benicia, Califórnia, não sobreviveram, mas as cinco paróquias que fundou na Califórnia se fortaleceram imensamente com seu trabalho. Morreu prematuramente em 1876 com 55 anos de idade. Sua vida é comemorada liturgicamente no dia 02 de abril.

Samuel Seabury (1784), o primeiro bispo da Igreja Episcopal, nasceu em 30 de novembro de 1729 em Groton, Connecticut. Depois de ordenado na Inglaterra em 1753 foi-lhe destinada a função de missionário da Sociedade para a Propagação do Evangelho e o trabalho paroquial na Igreja de Cristo em New Brunswick, New Jersey. Em 1757 foi eleito reitor da Igreja da Graça em Long Island e em 1766 reitor da Igreja de St Peter, no condado de Westchester. Durante a revolução americana permaneceu leal à coroa britânica e serviu como capelão do exército britânico.

Após a revolução, uma reunião secreta de clérigos realizada no dia 25 de março de 1783 em Woodbury escoleu a Seabury e o revd. Jeremias Leaming, qualquer um que estivesse disposto e aceitasse, para conseguir a sagração episcopal na Inglaterra. Leaming recusou. Seabury aceitou e viajou para a Inglaterra.

Após um ano de negociações, Seabury não conseguiu receber a ordenação episcopal por parte da Igreja da Inglaterra, pois sendo cidadão americano, não podia prestar juramento de fidelidade à coroa britânica. Então se dirigiu aos bispos da Igreja Episcopal da Escócia. Em 14 de novembro de 1784, na presença do clero e laicato, foi consagrado bispo coadjutor de Aberdeen e bispo de Ross e Caithness.

Após regressar à América, Seabury foi reconhecido como bispo de Connecticut na convenção de 3 de agosto de 1785 em Middletown. Trabalhou com o bispo William White na organização da Convenção Geral da Igreja Episcopal de 1789. Com o apoio de William Smith de Maryland, de William Smith de Rhode Island, de William White da Pennsylvania, e de Samuel Parker de Boston, Seabury cumpriu a promessa feita aos bispos escocês de convencer a Igreja americana a adotar a forma escocesa de celebração da Santa Eucaristia.

Em 1790, Seabury adquiriu a responsabilidade pela supervisão episcopal das igrejas de Rhode Island e, na Convenção Geral de 1793 participou na primeira consagração de um bispo em terras americanas, a de John Clagget, de Maryland. Seabury morreu em 25 de fevereiro de 1796 e foi sepultado na Igreja de St James, em New London. Sua data é 14 de novembro, data de sua sagração episcopal.

Extraído dos arquivos de Dom Sumio Takatsu

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Tradições da Espiritualidade Anglicana


Anglo-católica
 


Outra experiência espiritual que surgiu no seio da Igreja da Inglaterra foi aquele que teve a ver com o conhecido Movimento de Oxford. Este movimento incentivou, em meados do século XIX, um redescobrimento da experiência religiosa do tipo comunitário monástico. Estas ordens variavam desde o tipo contemplativo até as que tinham um caráter mais assistencial. Estas comunidades resgataram regras antigas da tradição cristã, como por exemplo as de S. Agostinho, S. Bento e S. Francisco de Assis. A Comunidade de Santa Maria Virgem, por exemplo, segue a regra de são Francisco de Sales, sendo uma das comunidades monásticas femininas mais antigas da Comunhão Anglicana. Uma outra bonita expressão de espiritualidade que vem surgindo nestes últimos cinquenta anos é a iconografia. Muitas são as pessoas e comunidades que passaram agora a desenvolver trabalhos ligados mais à espiritualidade oriental. Na Inglaterra há muitas possibilidades de se obter ícones devocionais tanto para casa como para igrejas. Um exemplo desta atividade pode ser encontrada em Wendy Kington, uma artista popular anglicana na Nova Zelândia que expõe toda a sua jornada espiritual através da pintura de cópias da Cruz de S. Damião.

V. Um projeto comum

Neste século, o ecumenismo foi um dos elementos que mais contribuiu para o
enriquecimento do anglicanismo. Tendo como elemento básico a fé na Trindade, o anglicanismo se acercou com as demais comunidades cristãs e com elas aprendeu sobre a beleza e a profundidade que havia nas outras tradições cristãs irmãs. “Em décadas recentes, muitas novas possibilidades surgiram. O compartilhar ecumênico entre as muitas tradições cristãs acabaram por fertilizar novas espiritualidades que nunca cresceram muito bem em solo anglicano, incluindo o misticismo, a renovação pentecostal, o ativismo de libertação, o feminismo e a unidade da criação”. É revelador ver em muitos Seminários Anglicanos ao redor do mundo, palestras e encontros, quando não disciplinas curriculares, que trabalham a espiritualidade de uma Teresa d’ Ávila ou de um São João da Cruz. É importante atestar em quase todo o mundo anglicano, um renovado interesse pela espiritualidade do deserto, particularmente àquela ligada ao Monte Athos e à oração de Jesus, conforme está exposta por exemplo no texto da Pequena Filocalia248 É surpreendente ver o aumento do interesse pelos ícones, elementos tão ligados à espiritualidade ortodoxa, também entre nossos pastores e líderes. Mais recentemente o anglicanismo vem empreendendo uma busca profunda sobre sua herança histórica através do estudo da comunidade e da espiritualidade celta. Muitos livros estão sendo escritos sobre este tema que hoje representa um desafio para todos nós. Um último e grande desafio que a Comunhão Anglicana está enfrentado nestes dias diz respeito ao que podemos aprender sobre espiritualidade no diálogo interconfessional249 com as comunidades hindu, budista, muçulmana, judaica, etc. Sem dúvida a rica tradição destas comunidades podem trazer, resguardadas as devidas diferenças, algum enriquecimento para a espiritualidade anglicana, particularmente no que diz respeito a antiga e esquecida prática da meditação250 que caiu em desuso por causa da intelectualização da teologia
ocorrida com o Iluminismo.

Rev. Jorge Aquino+

Obs.: os negritos não são do autor.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Correntes do Anglicanismo: Anglo-Católica




Assim como um grande rio é o resultado final da cooperação de inúmeros riachos e afluentes que nele jogam suas águas a Igreja anglicana entende ser, ela mesma, o resultado de inúmeros movimentos que tiveram lugar na rica história da Igreja de Cristo nestes dois milênios. Estes movimentos podem ser classificados em, pelo menos, cinco vias: “Católico”, “Protestante”, Evangélico”, “Carismático” e “Liberal”. Neste capítulo estudaremos a vertente católica que, dentro do anglicanismo, acabou por ser chamada de anglo-catolicismo. Com base nas palavras do então Rev. Sebastião Gameleira em seu artigo Anglicanismo: Católico ou Protestante? podemos, com segurança, afirmar que o “Anglicanismo não é paralelismo mas confluência no sentido de construirmos uma só igreja que, como um todo, tem suas próprias marcas”.105 A Igreja Anglicana entende assim ser simultaneamente uma igreja católica e reformada. Ela é, como alguém já disse, “católica para toda verdade de Deus e protestante contra todo erro humano”. Sendo assim ela quer aceitar as doutrinas próprias da Reforma sem ter que, necessariamente, lançar fora ou abrir mão de toda a tradição e riqueza que foi elaborada e guardada durante tantos séculos na história da Igreja universal. Ao mesmo tempo ela também pretende acolhe em seu seio outras vertentes que têm surgido com o passar do tempo e sob a iluminação do Espírito Santo, sem que com isso, gere conflitos e concorra para a desagregação da igreja. A Igreja Anglicana entende ser parte da Igreja una, santa, católica e apostólica de Cristo, assim como tantas outras denominações. Ela afirma isto, porque não acredita que haja uma outra Igreja além da única Igreja de Cristo, assim como também não há outro corpo além daquele que é exposto nas páginas do Novo Testamento e que é denominado de corpo de Cristo. Sua tendência anglo-católica, chamada em alguns lugares de “Igreja alta”, é aquela que durante os últimos anos se caracterizou pela guarda de determinados elementos, práticas, ritos e tradições que tomaram forma a partir do período patrístico e que se estenderam pela escolástica, até o século XIX. Ela pode, com muita propriedade, ser associada com algumas ênfases clássicas, tais como: a valorização dos sacramentos, uma liturgia mais rica e elaborada, a busca e o resgate da tradição e a insistência na sucessão apostólica. Mesmo entendendo que todo resumo e sistematização corre o perigo de se tornar uma caricatura, compreendemos que a tradição anglo-católica (Igreja Alta) pode, com muita propriedade, ser apresentada com as ênfases acima. Um bom resumo destes temas que marcam o anglo-catolicismo pode, com certeza, ser encontrado nas palavras de Massey Shepherd, num artigo escrito para a revista Concilium, no qual ele afirma que: “Quaisquer que tenham sido a ocasião e as circunstâncias da Reforma do século XVI, as Igrejas anglicanas sempre reivindicaram inquebrantada continuidade, na fé e na ordem, com a Igreja universal da antigüidade – transmitida numa seqüência em duas correntes da mesma fonte: as antigas fundações britânico-irlandesas do tempo do baixo império Romano e a missão enviada pelo Papa Gregório Magno ao povo anglo, no fim do século VI. Os anglicanos aceitam os credos eas decisões doutrinárias dos sete primeiros concílios ecumênicos como legítimas interpretações da revelação escriturística. As liturgias da comunhão anglicana contêm as diversas revisões do Book of Common Prayer, preservam as estruturas básicas e a substância do culto com se desenvolveu na Igreja do ocidente. E insiste também em manter as três ordens sacras: bispo, sacerdote (presbítero) e diácono em sucessão desde os tempos apostólicos e da Igreja primitiva”.106  Esta vertente conhecida então por anglocatolicismo teve sua origem ligada ao Tractarianismo ou Movimento de Oxford. Este movimento que teve sua origem em 1833 foi uma reação de setores da Igreja da Inglaterra contra dois inimigos: o domínio da igreja pelo Estado e o liberalismo teológico. O principal líder desde movimento foi John H. Newman (1801-1890), autor de vinte dos Tracts e que mais tarde se tornaria cardeal na igreja romana. Antes de iniciarmos propriamente nosso estudo acerca das características desta vertente do anglicanismo um lembrete: Ser anglo-católico não significa de forma alguma ser um católico romano. Em que pese haverem semelhanças nas tendências e nas ênfases, como veremos logo adiante, um anglo-católico continua sendo um protestante.

I.              Sacramentos.

Já no século XVI, com os 39 Artigos de Religião, os anglicanos entendiam que os sacramentos instituídos por Cristo “não são unicamente designações ou indícios da profissão dos cristãos, mas antes testemunhos certos e firmes, e sinais eficazes da graça, e da boa vontade de Deus para conosco pelos quais ele opera invisivelmente em nós, e não só vivifica, mas também fortalece e confirma a nossa fé nele.”(Artigo XXV) Como anglicanos, rejeitamos fortemente aquelas ideias segundo as quais os sacramento nada mais são do que ritos que representam ou simbolizam verdades espirituais. Nós cremos firmemente que os santos sacramentos não apenas possuem uma validade objetiva, mas também, que eles são fundamentais e centrais para a adoração e a prática cristã. De fato acreditamos que os sacramentos conferem graça a todos os que dignamente e com fé deles se aproximam. Como anglicanos, damos especial atenção ao Batismo e a Eucaristia (ceia do Senhor) porque foram instituídos diretamente pelo próprio Cristo, mas acreditamos também que Deus, através de sua graça e da ação do Espírito Santo, pode usar outras formas de comunicação das suas divinas bênçãos. A estas outras formas, chamamos “Ritos Sacramentais”. São eles: o matrimônio, ordenação, confissão, confirmação e a bênção dos enfermos. Quanto ao batismo, acreditamos ser ele “o Sacramento da Iniciação Cristã, pelo qual, através da Água e do Espírito Santo, o batizando nasce para uma vida nova e é enxertado no Corpo de Cristo, a Igreja”.107 Alguns anglo-católicos valorizam tanto a dimensão sacramental deste rito que chegam a beirar a doutrina da regeneração batismal, não valorizando a necessidade da fé pessoal para o relacionamento com Cristo. Quanto à eucaristia, podemos afirmar que todos os anglicanos nutrem por ela, uma enorme reverência, uma vez que ela é “o ato central do culto cristão”.108 A variedade de interpretações acaba por gerar uma variedade de ênfases e isto gera muitas designações para a eucaristia. Ela tanto pode ser chamada de “Santa Comunhão” como pode ser chamada de “Missa”. Esta última terminologia é mais comum entre os anglo-católicos. Estes, graças à sua postura tendente ao sacramentalismo, se aproxima de uma interpretação física da presença de Cristo na Eucaristia. Os demais Ritos Sacramentais são muito valorizados e ressaltados pelos anglo-católicos, chegando mesmo a entender que eles possuem o mesmo status de Sacramento, como os anteriores.

II.            Liturgia

No que diz respeito ao tema da liturgia, o movimento anglo-católico nos lembra e nos ensina quatro importantes verdades que deverão estar sempre diante de nós e que nunca deveriam ser negligenciada.

1.    A liturgia é um ato de adoração

A primeira verdade é que a liturgia é um ato de adoração. E se assim é, ela não pode ser feita de qualquer forma, apressadamente, descuidadamente ou relaxadamente. Além disso um Deus belo e criativo não deve ser adorado de uma forma pobre e feia. As realidades espirituais nos falam de sentimentos (pe. A alegria, o júbilo e a tristeza) que trazemos para o culto. Estes sentimentos podem muito bem ser traduzidos em gestos, posturas ou símbolos e cores, que nos auxiliam na adoração. Para tanto, símbolos, dias santos e épocas especiais nos ajudam a entender e a viver essas realidades espirituais. Tudo feito para tornar a adoração um ato relevante e significativo.

2.    A liturgia é um ato de comunhão.

A adoração é a grande, solene e festiva forma de se encontrar com Deus, seja individualmente, ou seja na comunidade dos cristãos em comunhão com Cristo. A liturgia, portanto, deve ter um papel importantíssimo, a medida em que ela facilitará ou dificultará esta comunhão. Os elementos do culto deverão ser de tal forma dispostos, que representem e facilitem a compreensão das grandes verdades espirituais que tratam da comunhão entre os homens e Deus e entre os homens e seus pares.

3. A liturgia é um ato do povo de Deus.

Outra verdade que deve ser destacada, é a de que a liturgia não é um ato isolado do sacerdote, ou um diálogo entre o celebrante e o coro. Não vamos aoculto para “assistir” alguém cultuar. Vamos para, como povo de Deus e como comunidade, celebrar a nova vida em Cristo e as bênçãos advindas desta realidade. Na liturgia a participação de todos os atores (clérigos e leigos) deve ser prevista estabelecida e esperada.

4. A liturgia possui ordem

A liturgia anglicana está reunida no Livro de Oração Comum. Este livro, que como tal surgiu em 1549, possui, dentre outros elementos, a ordem para as orações matutinas e vespertinas, o rito da eucaristia, do batismo, do matrimônio, da confissão, da ordenação, etc. Ordem e forma são importantes porque nos mantêm no caminho de uma adoração plena e equilibrada.


III.           Tradição.

A Igreja Anglicana e particularmente o anglo-catolicismo, valoriza fortemente o entendimento dos cristãos primitivos oriundos ainda de um período de ortodoxia e de indivisibilidade da Igreja de Cristo. Valoriza também as opiniões dos demais cristãos que, através dos séculos, se expressaram sobre os mais diversos assuntos, tais como as Escrituras, a liturgia, a vida cristã e as doutrinas centrais do cristianismo. Entendem que estas opiniões foram guiadas pelo Espírito Santo que as usou para o bem e a edificação do corpo de Cristo durante a Idade Média e até hoje. Entende, no entanto, que estas opiniões, decisões conciliares e afirmações precisam se conformar e se submeterem à autoridade das Escrituras como a base de toda nossa prática e crença. Desta forma, ritos, usos e costumes, oriundos da Idade Média ou ainda do período patrístico, não são necessariamente errados em si mesmos. Pelo contrário, eles fazem parte da rica herança que o anglicanismo herdou de seus pais e que não está disposto a abrir mão de forma alguma.

IV. O Episcopado Histórico

Os anglicanos entendem que a Igreja é uma instituição sagrada. Ela é o corpo de Cristo, que foi criada por ele mesmo e entregue aos apóstolos que foram comissionados para espalhar a boa nova ao redor do mundo. Entendem, também, que depois da morte destes apóstolos, a liderança passou aos homens que foram por eles mesmos estabelecidos: os bispos, seus legítimos sucessores. Os anglocatólicos, com razão, dão muita importância ao ministério episcopal. Mas, como para o anglo-catolicismo radical, o episcopado é uma questão de esse da Igreja, alguns, seriam capazes de abririam mão até do caráter ecumênico da Igreja anglicana se isso ameaçasse o episcopado. Explico, Sabemos que a Igreja anglicana é uma Igreja que tem atuado no movimento ecumênico moderno desde o seu início, na Conferência Missionária Mundial que se realizou em Edimburgo em 1910. Esta inclinação ao ecumenismo transpareceu na Conferência de Lambeth em 1920, quando de lá foi lançado um “apelo a todo povo cristão”, para que buscasse a unidade visível do cristianismo, tendo como base uma declaração com quatro pontos: “As Santas Escrituras como documento da revelação de Deus mesmo ao homem e como tendo a regra e o último padrão de fé; e o credo comumente chamado Niceno, como uma afirmação suficiente da fé cristã, e que ele ou o cedo dos apóstolos seja a confissão batismal da fé. Os sacramentos divinamente instituídos do batismo e da santa comunhão como exprimindo toda a vida corporificada de toda a comunhão cristã em e com Cristo. Um ministério reconhecido por todas as partes da Igreja como possuindo não somente o chamado interno do Espírito, mas também a comissão de Cristo e a autoridade de todo o corpo”. Mas é preciso que se destaque que, embora busque avidamente a unidade visível entre os vários membros do corpo de Cristo, a Igreja anglicana não está disposta a abrir mão da graça do Episcopado. Por isso, deve ser notado que, no que se refere ao quarto item, o que se refere ao ministério, o “apelo” reiterava queo episcopado é o único meio de providenciar este ministério. Ouçamos as palavras de Shepherd; “Não é que questionemos, um momento sequer, a espiritualidade real dos ministérios das Comunhões que não possuem o Episcopado. Pelo contrário, reconhecemos com gratidão que estes ministérios têm sido manifestadamente abençoado e pertencido ao Espírito Santo como meios eficazes de graça. Mas sustentamos o fato de que considerações, tanto históricas como da experiência atual, justificam a motivação que nos faz reivindicar a existência do Episcopado. Além disso insistimos em frisar que o Episcopado é agora, e dará provas de ser no futuro, o melhor instrumento para a manutenção da unidade e da continuidade na Igreja. Entretanto, desejamos sumamente que a função de Bispo seja por toda parte exercida de maneira representativa e constitucional e expresse com mais verdade tudo o que deveria significar – para a vida da família cristã – o título de Pai em Deus”,110 Portanto com esta convicção, e de conformidade com o ensino das Escrituras e com a prática da Igreja primitiva, os anglicanos- e de forma especial os anglo-católicos- valorizam o fato de que ela é governada por Bispos (supervisores) legitimamente consagrados por outros Bispos em uma ininterrupta cadeia de sucessão que se estende até o tempo dos apóstolos. Os presbíteros e diáconos são ordenados pelos bispos e por eles comissionados, autorizados e enviados para serviços particulares com responsabilidades especiais. O movimento anglo-católico, grosso modo, pode ser subdividido em duas grandes frentes teológicas. Uma mais conservadora, ligada ao movimentoconhecido como Faith Forward e outra de linha mais moderada conhecida como Affirm Catolicism. Cremos que há aspectos no anglo-catolicismo que ainda precisam ser alvo de um maior estudo e autocrítica por parte de seus membros. Em primeiro lugar o anglo-catolicismo precisa rever sua postura tradicionalista. O movimento anglocatólico em geral possui uma atitude reativa e não proativa no que diz respeito ao novo e a contextualização. Uma das instâncias em que este conservadorismo é particularmente visível é na dimensão litúrgica da igreja. Os anglo-católicos em geral possuem um apego muito forte ao texto litúrgico e a formalidade da cerimônia, fazendo-nos entender que o rito passa a ser um fim em si mesmo e não uma ferramenta missionária. Em segundo lugar este movimento precisa rever sua postura hierarquista. O apego ao tradicional e a rejeição da modernidade (e consequentemente à Reforma) faz com que os anglo-católicos assumam também uma postura de fortalecimento da hierarquia e o desenvolvimento da temática episcopal e sacerdotal em sua agenda de discussão. Isto acaba por gerar uma despreocupação 58 com o papel do leigo e com a sinodalidade como opção de administração participativa da Igreja. Com toda a segurança o tema que mais marcou presença nos círculos anglocatólicos nas ultimas décadas, foi aquele relacionando com a ordenação feminina. Este assunto acabou gerando tanta discussão que, apenas nos Estados Unidos cerca de doze (12) igrejas cismáticas surgiram por causa da rejeição desta prática. Além disso, tanto os Estados Unidos quanto a Inglaterra, presenciaram uma grande migração de clérigos anglicanos para as Igrejas Ortodoxas ou mesmo para a Igreja Romana. Em terceiro lugar sua postura sacramentalista. Os anglo-católicos precisam rever esta postura onde, a ortodoxia do rito e da fórmulas históricas, muitas vezes passas a ser mais importante do que o alvo para onde os ritos e as fórmulas apontam. Para encerrar gostaria de me reportar a excelente sistematização feita pelo bispo D. Robinson Cavalcanti sobre as correntes anglicanas, onde ele nos lembra que a fonte teológica que o anglo-catolicismo privilegia é a patrística. Lá ele também nos innforma que, como sua afinidade eclesial é com o catolicismo romano e com a ortodoxia oriental, eles tendem a uma soteriologia sacramentalista, a uma liturgia ritualista; e que, apesar de suas preocupações sociais filantrópicas, normalmente possuem uma inserção socio-política conservadora. No que diz respeito às posturas teológicas, os anglo-católicos também se inclinam ao conservadorismo, mormente nas questões mais tensas como a teologia do divórcio, da ordenação feminina e da ordenação de homossexuais. A bem da verdade, deve-se registrar que, dentro da ala católica da Igreja anglicana, há também setores que se inclinam para o carismatismo e outros que se inclinam para o liberalismo.

Rev. Jorge Aquino+

sábado, 31 de agosto de 2013

Culto sem solenidade e solenidade sem culto

Tudo era feito com muita solenidade na velha aliança. 

Havia reuniões solenes (Nm 29.35, Lm 1.4), assembleias solenes (Jl 1.14), festividades solenes (Zc 8.19), juramentos solenes (Ez 21.23) e descanso solene (Lv 23.3, 39). Foi “solenemente” que Josué designou as seis cidades de refúgio para abrigar os homicidas envolvidos em acidentes que provocavam mortes (Js 20.7). Fala-se até na “solenidade da harpa” (Sl 92.3). Não era falta de solenidade bater palmas (Sl 47.1) e até dançar em ocasiões de intensa alegria e gratidão ao Senhor (Sl 150.4, Jr 31.4), como fizeram Miriã (Êx 15.20-21), a filha de Jefté (Jz 11.34) e Davi (2 Sm 6.14). Também não era falta de solenidade usar outros instrumentos musicais que não a harpa, como trombetas, pandeiros e pratos sonoros (Sl 150.3-5 BLH). Na velha aliança a liturgia era pesadíssima. Havia vestes litúrgicas, posições litúrgicas, ambientes litúrgicos, sacrifícios litúrgicos, comemorações litúrgicas etc. O auge da solenidade envolvia o Santo dos Santos, aquele lugar tremendamente sagrado do tabernáculo móvel e do templo de Jerusalém, onde estava a Arca do Senhor, no interior do qual ninguém podia entrar, senão o sumo sacerdote do ano, apenas no grande dia da expiação, assim mesmo depois de ter feito a purificação de seus pecados, dos pecados de sua família e dos pecados de todo o povo. Essa solenidade toda tinha o propósito de acentuar duas coisas ao mesmo tempo: a santidade absoluta de Deus e a pecaminosidade absoluta do homem. Com o sacrifício de Jesus, o véu que separava o lugar santo do lugar ainda mais santo rasgou-se de alto a baixo e o Santo dos Santos ficou a descoberto (Mt 27.51). Deus continua absolutamente santo e o homem absolutamente pecador, mas a cruz tornou possível ao homem o acesso à presença de Deus. Jesus é o “novo e vivo caminho” que nos conduz ao Pai (Hb 10.20). Não se encontra na nova aliança liturgia em excesso. O culto tornou-se mais leve e mais livre, quem sabe mais informal, embora não menos rígido quanto à santidade do crente, à semelhança do seu Senhor. O “sede santos porque Eu sou santo” do Velho Testamento (Lv 11.44-45) foi trazido também para o Novo Testamento (1 Pe 1.16). Basta lembrar da morte súbita de Ananias e Safira (At 5.1-11). O acentuado temor do Senhor precisa ser cultivado agora como o foi no passado. Na velha aliança, a grande tentação era a solenidade sem culto. Na nova aliança, a grande tentação é o culto sem solenidade. Os profetas lutavam contra a solenidade sem culto e os apóstolos, contra o culto sem solenidade.  É muito conhecida a palavra de Isaías contra a solenidade sem culto: “Não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene” (Is 1.13). É muito conhecida a palavra de Paulo contra o culto sem solenidade: “Tudo deve ser feito com decência e ordem” (1 Co 14.40 NVI). A solenidade sem culto provoca rejeição da parte de Deus: “Aborreço, desprezo as vossas festas, e com as vossas assembleias solenes não tenho nenhum prazer” (Am 5.21). O culto sem solenidade pode escandalizar e afastar os incrédulos, a ponto de pensarem que os fiéis estão todos loucos (1 Co 14.23). Não adianta perguntar qual dos dois é pior: a solenidade sem culto dos judeus ou o culto sem solenidade dos cristãos. Os dois não agradam a Deus. 

http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/254/ 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Paróquia Anglicana de Todos Os Santos – Santos – SP

    Foto de 1920
 
Registros históricos apontam a presença Anglicana em Santos a partir de 1862. A Igreja de Todos os Santos - All Saints´ Church, foi consagrada em 21 de abril de 1918, pelo Revmo. Bispo Dom Edward Francis Every que na época tinha a função de atender à comunidade anglicana (episcopal) residente em Santos e aos marinheiros estrangeiros de língua inglesa que passavam pelo porto. Em 1963, a Missão Brasileira havia se tornado emancipado da Igreja-Mãe estadunidense, surgindo a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Porém, a Igreja de Todos os Santos só viria a se filiar a ela em 1971, tendo sido aprovada como uma Paróquia subvencionada canonicamente constituída pelo Concílio da Diocese Sul-Central realizado sob a presidência do primeiro Bispo Diocesano Revmo. Dom Elliot Sorge. Atualmente, mantém semanalmente serviços religiosos em Português e mensalmente em Inglês. O Centro Sociocultural Anglicano, ligado à paróquia, promove cursos de idiomas, música e eventos culturais abertos a toda comunidade santista. Funciona ainda, como Capelania da Missão aos Marinheiros, entidade com sede em Londres.

Fontes:

www.igrejaanglicana.net

https://www.facebook.com/pages/Par%C3%B3quia-Anglicana-de-Santos/165178076914498?fref=ts

domingo, 25 de agosto de 2013

Somos homens do conhecimento

Na data de hoje, em 25/08/1900.,morria F. Nietszche
 
 
"Nós, que somos homens do conhecimento, não conhecemos a nós próprios; somos de nós mesmos desconhecidos e não sem ter motivo. Nunca nós nos procuramos: como poderia, então que nos encontrássemos algum dia? Com razão alguém disse: "onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração". Nosso tesouro está onde se assentam as colmeias do nosso conhecimento. Estamos sempre no caminho para elas como animais alados de nascimento e recolhedores do mel do espírito, nos preocupamos de coração propriamente de uma só coisa - de "levar para casa" algo. No que se refere, por demais, a vida, as denominadas "vivências" - quem de nós tem sequer suficiente seriedade para elas? Ou o suficiente tempo? Jamais temos prestado bem atenção "ao assunto": ocorre precisamente que não temos ali nosso coração - e nem sequer nosso ouvido! Antes bem, assim como um homem divinamente distraído e absorto a quem o sino acaba de estrondear fortemente os ouvidos com suas doze batidas de meio-dia, e de súbito acorda e se pergunta "o que é que em realidade soou?", assim também nós abrimos às vezes, os ouvidos depois de ocorridas as coisas e perguntamos, surpreendidos e perplexos de tudo, "o que é que em realidade vivemos?, e também " quem somos nós realmente? e nos pomos a contar com atraso, como temos dito, as doze vibrantes campainhas de nossa vivência, de nossa vida, de nosso ser - ah! e nos equivocamos na conta... Necessariamente permanecemos estranhos a nós mesmos, não nos entendemos, temos que nos confundir com outros, e, em nós servirá sempre a frase que disse "cada um é para si mesmo o mais distante" continuamos a nos considerar "homens do conhecimento".

Prólogo da Genealogia da Moral de F. Nietzsche

Entrevista com Peter Singer

Por MARCELO LEITE (Folha de São Paulo, 25/08/2013)

Por Uma Vida Menos Ordinária

 
RESUMO Peter Singer, professor da Universidade de Princeton (EUA), vem ao Brasil para duas palestras no ciclo Fronteiras do Pensamento. Ele argumenta que a pobreza e a mudança do clima são os maiores problemas do mundo e, como solução, defende que as pessoas reduzam consumo de carne e doem parte de sua renda.
 
O filósofo australiano Peter Singer, da Universidade de Princeton (EUA), é o conferencista de amanhã, em Porto Alegre, do ciclo Fronteiras do Pensamento. Na quarta-feira ele estará em São Paulo para palestra no Teatro Geo, onde deve abordar temas de ética prática como a pobreza no mundo, escolhas alimentares, bem-estar animal e mudança climática.
 
Para o controverso autor do clássico "Libertação Animal" [trad. Marly Winckler e Marcelo Brandao Cipolla, WMF Martins Fontes, 496 págs., R$ 79,90], cada pessoa deveria doar uma parte de sua renda para ajudar a diminuir a desgraça de 1 bilhão de pobres que vivem com menos de um dólar por dia. Esse é o tema do livro "The Life You Can Save", de 2009 (lançado em Portugal com o título "A Vida que Podemos Salvar", Gradiva, 252 págs., R$ 69,10, sob encomenda), mas um de seus primeiros artigos, de 1972, já tratava dele --e foi citado por 1.259 outros autores desde então.
 
Singer está insatisfeito com o efeito do livro, que calcula ter vendido 60 mil cópias no mundo inteiro. Mais ainda com o baixo número de "compromissos" (pledges) da página de internet equivalente, em que pessoas comuns podem jurar em público que vão passar a doar determinado percentual de sua renda para organizações de caridade: 16.394. Ele doa um terço de sua renda, mas prefere não equiparar a "cegueira moral" dos outros ao Holocausto, e diz que é o maior problema do presente é a pobreza, ao lado da mudança do clima, no futuro.
 
Folha - O tema da mudança climática já apareceu também no seu radar ético? Ela tem o potencial de tornar a vida pior para um bocado de gente pobre, no futuro. Devemos nos importar menos com as vidas futuras do que com as do presente?
 
Peter Singer - Esses dois assuntos estão intimamente conectados. A resposta curta para a pergunta é "não". Devemos nos importar o mesmo tanto com as pessoas, não importa a época em que vivam. Claro que há questões sobre a incerteza, quando falamos do futuro. Nós podemos saber muito mais sobre as pessoas que vivem agora, de modo a ajudá-las, do que podemos saber sobre pessoas que viverão daqui a cem anos. Isso é relevante, e podemos aplicar um desconto sobre o futuro, mas num grau bem pequeno.
 
Não é demais pedir a alguém que se torne vegetariano e ainda por cima doe uma porção significativa de sua renda para combater a pobreza?
 
Reconheço que só algumas pessoas vão de fato agir nesse sentido. Mas acho que todo mundo poderia considerar uma mudança nas suas escolhas alimentares e, se tiverem alguma sobra de dinheiro, considerar sua responsabilidade perante os pobres do globo. Não é uma questão de tudo ou nada, ou você se torna um vegetariano ou não faz nada. Várias pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, estão dizendo: "Bem, eu como carne todos os dias...". Existe uma prática chamada Segunda-Feira Sem Carne. Outros escolhem dois ou três dias por semana em que não comem carne. Penso que seja algo fácil de fazer, uma coisa saudável, e obviamente faz diferença, pelo menos do ponto de vista de reduzir a pecuária industrial e a emissão de gases do efeito estufa.
 
Se o sr. tivesse de dar um conselho a um adolescente sobre como agir, diria que ele ou ela devem se juntar a uma organização de caridade, a um partido político ou a uma ONG militante? O que seria mais eficaz para salvar vidas agora e no futuro?
 
Bem, não há razão para não fazer as três coisas. Não precisa ser uma escolha do tipo "ou isso ou aquilo". O valor de se envolver com um partido político vai depender de onde, no mundo, a pessoa vive e de quão abertos são os partidos políticos, da possibilidade de fazer alguma diferença nesses partidos. Minha resposta, realmente, é: quanto mais, melhor.
 
Há um problema com a ideia de ação individual. Um exemplo: no livro "Uma Verdade Inconveniente", Al Gore dá uma série de ideias sobre o que as pessoas podem fazer para combater o aquecimento global, como trocar as lâmpadas de casa. Mas, desde 2006, as coisas só pioraram nesse campo. O sr. acha que pedir às pessoas que doem parte de sua renda resolve algo?
 
Acho que não é igual ao caso da mudança climática. Se eu doo para a Oxfam ou outra organização eficiente, isso faz uma diferença específica. Claro que não se trata de resolver a questão da pobreza global; obviamente eles não podem fazer isso. Mas quer dizer que algumas famílias vão receber telas contra mosquitos para as camas e que suas crianças não vão morrer de malária, ou que as crianças vão receber vermífugos e, sem parasitas, serão mais saudáveis, terão mais energia e irão melhor na escola. Ou uma aldeia consegue abrir um poço, e as pessoas não terão mais de caminhar três horas por dia para conseguir água.
 
 
A razão para não ser assim com a mudança do clima é que, neste caso, de fato é necessário que governos se unam e estabeleçam limites de emissões de gases do efeito estufa. Não há como reunir um grupo de pessoas que possa fazer algo de significativo para de fato reduzir o aumento dos gases de efeito estufa e o aumento de temperatura resultante. São decisões mais amplas, como livrar-se de usinas elétricas movidas a carvão, criar um imposto sobre o carbono ou um mercado para créditos de carbono. É uma situação diferente da pobreza global, para a qual penso que indivíduos podem fazer uma grande diferença.
 
 
Voltando ao tema do bem-estar animal e do bem-estar humano. O sr. responde ao romance "A Vida dos Animais", do sul-africano J.M. Coetzee, indicando que vê problema na comparação que a protagonista, Elizabeth Costello, faz entre o modo como tratamos os animais e o Holocausto. O sr. escreveu: "O valor que se perde quando algo é esvaziado depende do que estava ali quando estava cheio, e há mais [conteúdo] na existência humana do que na de um morcego".
 
Esse argumento se parece ao de parte de pecuaristas que destroem a floresta no Brasil: eles criam empregos que vão beneficiar pessoas, e pessoas são mais importantes que o ambiente ou espécies selvagens. O sr. concorda?
Concordo com a posição geral de que é relevante a questão de quantas pessoas estão se beneficiando e quantas pessoas estão sofrendo, mas não que isso seja usado como argumento para destruir a Amazônia ou pôr mais cabeças de gado para pastar, ignorando as questões de longo prazo de que falávamos há pouco. Uma das principais causas das emissões brasileiras de gases do efeito estufa é o desmatamento; outra, o próprio gado. Esse pessoal não está de fato beneficiando mais pessoas do que aquelas que consomem essa comida hoje. Eles causam muito mais dano no mundo todo, hoje e no futuro. É um cálculo errado.
 
E quanto à oposição de valores entre existências humanas e animais? Devemos ter uma preferência?
 
É razoável dizer que, se se trata do valor de uma vida, do ato de matar em si, o ser cuja vida contenha mais capacidades sofre uma perda maior. Se for para comparar a morte de uma pessoa com a de uma vaca, é razoável dizer que a morte de um ser humano é a tragédia maior. Mas há muito mais que o ato de matar na criação industrial de animais, que vivem vidas horríveis. Precisamos perguntar: por que fazemos isso, qual a necessidade de fazer assim?
 
Seria comparável ao caso dos alemães que preferiam ignorar a existência de campos de concentração, como sugere a personagem Elizabeth Costello, de Coetzee?
 
Há um certo paralelo aí. A diferença, suponho, é que as pessoas na Alemanha aceitavam a moralidade da ideia de que é errado matar seres humanos inocentes. Creio que estavam mais conscientes da seriedade do mal que se fazia durante o Holocausto, na medida em que sabiam do que estava acontecendo. No entanto, a maior parte das pessoas não é criada com a noção de que animais são moralmente importantes, de que devemos dar a seus interesses a mesma consideração que damos aos nossos. Pode-se dizer que voltar as costas para isso é mais desculpável. Mas também creio que haja algum paralelo, sim.
 
Um paralelo constrangedor, não? Essa é a questão suscitada pelo livro de Coetzee.
 
Sim. Ele é um escritor brilhante e nos faz sentir o desconforto das pessoas na plateia quando ouvem a palestra de Elizabeth Costello sobre o questionamento de seus hábitos. Há no livro a discussão particular sobre o paralelo com o Holocausto, muito contencioso. Coetzee está expondo as pessoas a esse desconforto. Mas, de novo: não há um número suficiente de pessoas que o estejam lendo e levando essas questões em conta.
 
O sr. iria até o ponto de dizer que a pobreza mundial é o Holocausto do século 21?
 
Não gosto muito de usar essa linguagem de Holocausto, de estendê-la para coisas que não estão assim tão perto. Vejo algumas diferenças. Ao dizer que o que está acontecendo com os pobres do mundo é o nosso próprio Holocausto, você desqualifica ou reduz a enormidade do que aconteceu no período histórico dos anos 1940. Mas o que eu diria é que, ao lado da mudança climática, é uma cegueira moral que temos e que, na escala de sua seriedade e de suas consequências, é comparável ao Holocausto.