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segunda-feira, 30 de novembro de 2015
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Religião deixa você feliz?
Stephen J. Dubner e Steven
D. Levitt
13/08/2014

Um episódio recente de nosso podcast "Freakonomics Radio", chamado "Religião Deixa Você Feliz?", foi produzido em resposta a uma carta que recebemos de um ouvinte. Joel Rogers, um auditor fiscal em Birmingham, Alabama, escreveu:
"Por serem batistas do Sul devotos, meus pais deram com convicção 10% de sua renda para a igreja durante toda a vida. Eu expressei recentemente minha opinião de que achava que era dar demais, e teve início uma discussão entre meus pais e eu."
"Após um pouco de altercação, meus pais reconheceram que os 10% de dízimo podem não ser o valor exato que 'Deus' espera, mas minha mãe disse algo que chamou minha atenção. Ela disse que os 10% dados à igreja os deixavam mais felizes do que qualquer coisa na qual poderiam ter gasto o dinheiro."
"Eu já li que pessoas que frequentam de forma consistente instituições religiosas são mais felizes que seus pares (que não frequentam). O economista dentro de mim diz que o dinheiro (não dado à igreja) deixaria aquele que não doa mais feliz, igualando as coisas. Logo, trocar 10% de sua renda pelo direito de participar em uma congregação religiosa aumenta ou diminui estatisticamente sua felicidade?"
Rogers está na verdade fazendo duas perguntas. Uma é se dar o dinheiro – neste caso, para uma instituição religiosa – deixa você mais feliz. A outra é se a religião em si deixa você mais feliz. Nenhuma das perguntas é fácil de responder, mas nós fizemos o melhor que podíamos.
Stephen Dubner falou com Laurence Iannaccone, um economista da Universidade Chapman, na Califórnia, que é especializado em economia da religião (e ele é um cristão evangélico). Ele tinha uma resposta direta para a primeira questão de Rogers: "Os dados que dispomos sugerem uma forte associação positiva entre as várias medições de felicidade e bem-estar por um lado, e outras medidas de envolvimento religioso, incluindo doação, por outro".
Logo, quem doa mais, ao menos entre os cristãos nos Estados Unidos? Segundo Iannaccone, as denominações protestantes conservadoras tendem a ser as mais generosas, particularmente as Assembleias de Deus, os Adventistas do Sétimo Dia e as igrejas mórmons, cujos membros doam em média 6% a 7% de sua renda. Os batistas doam em média 3% a 5%, enquanto os católicos, luteranos e episcopais contribuem com 1% às causas religiosas. Geralmente considerados os mais liberais dos cristãos, os unitários também são os menos generosos, doando menos de 1% de sua renda em média.
É claro, só porque há uma correlação entre doação religiosa e felicidade não significa que há causação entre as duas – que o dízimo torna você de fato mais feliz. Como nota Iannaccone, é possível que pessoas mais felizes simplesmente apresentem maior probabilidade de contribuir para sua igreja; ou pode ser que pessoas mais ricas sejam mais felizes, e como suas contas bancárias são maiores, podem doar mais; ou pode ser que pessoas mais felizes sejam mais bem-sucedidas, o que as torna mais ricas e, portanto, mais generosas. Em outras palavras, não é fácil responder à primeira pergunta de Rogers: doar à igreja leva diretamente a um maior contentamento?
Jonathan Gruber, um economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, sugere lidar com o assunto de modo diferente: estreitando o foco. Em artigo de pesquisa de 2004, intitulado "Pague ou Reze? O Impacto dos Subsídios de Caridade na Frequência Religiosa", Gruber investigou se doar dinheiro a uma igreja é um complemento à frequência religiosa ou um substituto. Seus resultados sugerem que é na verdade um substituto: cada 1% de aumento na doação produz uma redução de 1,1% na frequência à igreja.
Assim, o que tudo isso significa para a família de Rogers que adora a igreja? Gruber disse para Dubner: "Se ir à igreja é o que importa para eles, para sua felicidade e bem-estar, então eles deveriam doar menos e ir mais".
Mas e quanto à segunda pergunta e, no final, mais profunda, de Rogers: a religião por si só torna as pessoas mais felizes?
Aqui também é incrivelmente difícil provar a causação, mas Gruber descobriu uma solução nova, apesar de imperfeita. Para um artigo de 2005 intitulado "Estrutura de Mercado Religiosa, Participação Religiosa e Resultados: a Religião É Boa para Você?", Gruber olhou para pesquisas sociológicas anteriores mostrando que pessoas são mais religiosas quando vivem em áreas com mais pessoas da mesma religião (isto é, os católicos são mais católicos em Boston e os luteranos são mais luteranos em Minneapolis). Colocando a densidade étnica na mistura, ele determinou que os católicos poloneses são mais religiosos em Boston do que são em, digamos, Minneapolis (já que há mais deles na primeira cidade), e que, igualmente, os suecos luteranos são mais religiosos em Minneapolis do que em Boston.
Ao mesmo tempo, Gruber encontrou uma "forte correlação" entre pessoas que vivem entre grandes grupos de sua própria etnia (como os poloneses em Boston) e uma série de resultados positivos, incluindo rendas maiores, maior escolaridade e casamentos mais estáveis. O difícil era provar que isso tinha a ver com a maior participação religiosa e não simplesmente por esses grupos viverem ao lado de mais pessoas semelhantes. Gruber fez isso mostrando que os suecos que vivem entre muitos outros suecos se comportam de modo muito semelhante a aqueles que não – exceto no que se refere à observância religiosa – e o que o mesmo vale para os poloneses. Ele também demonstrou que o agrupamento de grupos étnicos diferentes que compartilham uma religião (como poloneses e italianos) pode produzir resultados igualmente positivos.
Logo, como exatamente a religião aumenta a prosperidade de alguém? Gruber argumenta que uma igreja ou sinagoga age como uma "rede social" que oferece uma forma de "seguro contra coisas ruins que possam acontecer a você". Se as pessoas adoecem, perdem seus empregos, se divorciam e assim por diante, elas podem ir à igreja e encontrar ajuda e consolo.
O argumento de Gruber está longe de inatacável – um fato que ele prontamente admite. "É importante que seus ouvintes entendam que, você sabe, a vida não é preto e branco, e às vezes há respostas mais claras que outras, e às vezes temos um teste aleatório e às vezes não", ele disse a Dubner. "E, na vida, você precisa decidir se a questão que você deseja responder é importante o bastante, mesmo que a resposta não seja tão clara quanto você gostaria."
E quanto ao próprio Gruber? A pesquisa dele reacendeu qualquer paixão pelo judaísmo de sua juventude? Não muito. "Eu era meio que forçado a ir ao templo quando era menino e me cansei disso. Eu tentei, mas não adiantou. Então decidi que não iria fingir para continuar indo."
(Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são autores de "Think Like a Freak", assim como de "Freakonomics: O Lado Oculto e Inesperado de Tudo Que Nos Afeta" e "Superfreakonomics: O Lado Oculto do Dia a Dia". Para mais informação, visite o site Freakonomics.com. Assine ao podcast "Freakonomics Radio" no iTunes ou ouça em Freakonomics.com/radio.)
Tradutor: George El Khouri Andolfato
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Uma Nova Religião? Solidariedade (Umberto Eco)
Os refugiados e uma nova religião com base na solidariedade
A solidariedade para com as pessoas em busca de asilo na Europa não surgiu em um único dia. Ela vinha ardendo sob a superfície há algum tempo. Mas foi preciso uma foto de uma criança síria afogada –e uma corajosa chanceler alemã– para que ganhasse voz
Matteo Salvani, o líder do xenofóbico partido Liga do Norte da Itália, estava certo quando comentou recentemente que a hábil chanceler da Alemanha, Angela Merkel, fechou um acordo de primeira ao acolher dezenas de milhares de sírios, muitos deles profissionais com alta escolaridade, para ajudar a estimular o produto interno bruto de seu país. E, ele acrescentou, o restante da Europa pode ficar com as sobras.
Mas uma pergunta vem à mente: por que um homem tão astuto como Salvani não pensou nisso primeiro? Afinal, há muitos milhares de sírios aqui na Itália. Além disso, é tão difícil imaginar que poderíamos encontrar mais que alguns poucos imigrantes com boa escolaridade entre os outros grupos étnicos? Por exemplo, eu encontro com frequência homens senegaleses vendendo guarda-chuvas e malas nas ruas de Milão, que falam francês e italiano com fluência e dizem ter cursado a faculdade.
Décadas de democracia alemã não apagaram totalmente a imagem na consciência do Ocidente do alemão intransigente gritando "kaput". Esse fantasma horrendo pareceu ressurgir durante a recente crise da dívida grega. Mas Merkel conseguiu transformar essa imagem nacional terrível em uma compassiva: um alemão (ou austríaco) sorridente pronto para acolher famílias de refugiados (e não apenas os sírios com diploma superior), fornecer necessidades vitais ou mesmo uma simples carona em seu carro.
A esta altura parece que Merkel selou o acordo, apesar dos problemas que surgiram com o fornecimento de moradia e alimentação para milhares de recém-chegados. Ela também está enfrentando críticas cada vez maiores por parte do público alemão e dos políticos do país, inclusive de seu próprio partido, pela forma como ela lidou com a crise. Mesmo assim, ela continua defendendo sua decisão.
Mas a compaixão dela em relação aos imigrantes não é boa apenas para a economia; ela representa algo bem mais profundo. Isso ficou claro no início de setembro, quando o mundo viu pela primeira vez a foto de Aylan Kurdi, o menino sírio de 3 anos encontrado afogado em uma praia em Bodrum, Turquia.
Em uma conferência de mídia realizada posteriormente naquele mês na Riviera italiana, o jornalista Mario Calabresi observou que uma foto sozinha não justifica a conversão global instantânea.
Mas, ele explicou, pode-se chegar a um momento crítico após uma quantidade significativa de tensão e desconforto acumulada com o tempo. Nesses momentos, uma imagem sozinha pode provocar uma transformação profunda. Isso já aconteceu antes na história. No caso do jovem Aylan, um senso de solidariedade estava ardendo sob a superfície há anos.
Pense nisso como uma nova religiosidade. Hoje, as religiões tradicionais estão em crise e com frequência em conflito umas com as outras, mas essa nova solidariedade supera as divisões entre cristãos católicos, protestantes e ortodoxos. Pode até mesmo superar as divisões entre cristãos e muçulmanos. O papa Francisco se tonou um intérprete dessa nova religiosidade ao pedir para que cada paróquia, comunidade religiosa ou mosteiro ajudasse e abrigasse ao menos uma família de refugiados.
Por anos as pessoas se preocuparam com o desaparecimento dos centros educacionais tradicionais para jovens, independentemente de serem administrados pela Igreja ou vários partidos políticos, e a solidariedade social que forneciam. Mas, pouco a pouco, uma sensibilidade semelhante vem sendo cultivada, mesmo sem eles.
Na Itália, vimos os primeiros sinais dessa camaradagem quando Florença foi atingida por enchentes em 1966, e centenas de jovens de todo o país –e de todo o mundo– vieram à cidade atingida para retirar livros da lama na Biblioteca Nacional. Mais recentemente, vimos evidência desse fenômeno na Médicos Sem Fronteiras, voluntários que foram à África e nos centenas de estudantes trabalhando sem remuneração em vários festivais culturais.
Essa solidariedade está destinada a durar? Não sei, mas certamente ela é alimentada pelo comportamento miserável de outros. Em termos de seu poder e amplitude, ela será capaz de superar as ondas de xenofobia que agora correm por toda a Europa? Talvez devêssemos lembrar que as primeiras comunidades cristãs eram minúsculas em comparação ao paganismo triunfante que as cercava.
Essa nova religião da solidariedade sem dúvida terá seus mártires, e não é preciso procurar muito para perceber que muitas pessoas estão preparadas para derramar sangue para sufocá-la. Mas talvez sejam elas, e não os imigrantes, que serão detidas.
Fonte: http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/umberto-eco/2015/10/31/os-refugiados-e-uma-nova-religiao-com-base-na-solidariedade.htm
Tradutor: George El Khouri Andolfato
UMBERTO ECO
Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".
sábado, 2 de maio de 2015
Catedral Anglicana de São Paulo obtém vitória em processo movido pela IEAB
Boa Notícia! A Catedral Anglicana de São Paulo acaba de obter decisão jurídica favorável em primeira instância referente ao processo movido pela IEAB a respeito do seu patrimônio e uso da expressão "anglicana":
28/04/2015 Julgada improcedente a ação
Ante o exposto e tudo o mais que dos autos consta, com fundamento no art. 269, inciso I, do Código de Processo Civil, JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO INICIAL. Deixo de impor penalidade, porquanto não reconhecida situação de litigância de má-fé. Por fim, condeno a parte vencida ao pagamento das despesas processuais e de honorários advocatícios, que ora arbitro, por equidade, nos termos do art. 20, parágrafo quarto, do Código de Processo Civil, em R$3.000,00 (três mil reais). Custas "ex lege". P.R.I.C.
Obs.: A consulta processual é pública e qualquer pessoa pode ter acesso aos Autos no balcão da Vara. Mas somente um advogado pode fazer carga (levar o processo).
Processo: 0033205-63.2013.8.26.0002
Classe: Procedimento Ordinário
Área: Cível
Assunto: Defeito, nulidade ou anulação
Local Físico: 03/02/2015 00:00 - Gabinete do Juiz
Distribuição: Livre - 16/05/2013 às 10:19
3ª Vara Cível - Foro Regional II - Santo Amaro
Juiz: Fabrício Stendard
Valor da ação: R$ 1.000,00
Classe: Procedimento Ordinário
Área: Cível
Assunto: Defeito, nulidade ou anulação
Local Físico: 03/02/2015 00:00 - Gabinete do Juiz
Distribuição: Livre - 16/05/2013 às 10:19
3ª Vara Cível - Foro Regional II - Santo Amaro
Juiz: Fabrício Stendard
Valor da ação: R$ 1.000,00
Portal de Serviços e-SAJ
esaj.tjsp.jus.br
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Nietzsche e o Cristianismo
Autor: OSWALDO GIACÓIA JR
Interessa ao filósofo não a verdade histórica, ou seja, o
texto da verdadeira pregação do Cristo, mas a reconstituição de seu tipo
psicológico.
Que possibilidades restam hoje para um diálogo entre Nietzsche e o
Cristianismo? Tomemos a frase de O anticristo que, de imediato, nos
lança no campo filológico das relações entre texto e interpretação: “Eu
volto atrás. Conto a autêntica história do Cristianismo (des
Chirstenthums). Já a palavra ‘Cristianismo’ (Christenthum) é um mal
entendido – no fundo houve um único cristão, e este morreu na cruz. O
‘Evangelho’ morreu na cruz.”1.
O Cristianismo (Christenthum) é um mal entendido porque resulta de
uma falsa interpretação do Evangelho, da vida de Jesus de Nazaré. “O
‘Evangelho’ morreu na cruz” – isso significa que o mal entendido
consiste na fé cristã, tal como esta se apresenta no Cristianismo
histórico. Desvirtua-se a Boa Nova de Jesus, considerando-a sob a óptica
teológica do pecado, da culpa e do castigo; tomando-o como vítima
expiatória de um sacrifício vicário.
Nietzsche estabelece uma oposição entre Christenthum (Cristianismo) e
Christlichkeit e Christ-sein (respectivamente Cristianicidade e
ser-cristão). O Cristianismo ‘oficial’ consiste na redução do
Ser-cristão, da espiritualidade própria à Cristianicidade, a dogmas,
fundamento da crença eclesiástica.
“Reduzir o Ser-cristão, a Cristianicidade a um ter-por-verdadeiro, a
uma mera fenomenalidade da consciência, significa negar a Cristianidade.
De fato não houve em absoluto cristãos. O ‘cristão’, aquilo que há dois
milênios se chama cristão, é meramente um mal entendido
psicológico.!”2?
A Cristianicidade não se expressaria em estatutos, organização
institucional com cerimônias e rituais; ela consiste antes numa práxis,
num fazer e se abster, numa forma de ser.3? A Christlichkeit é uma
condição natural de vida, não uma causalidade psicológica, ativada por
crenças e estados mentais. Para Nietzsche, essa práxis – esta é
autêntica Boa-Nova.
O Cristianismo (das Christenthum), por oposição a isso, é uma
religiosidade da fé. “Estados de consciência, alguma crença, um
ter-por-verdadeiro, por exemplo – todo psicólogo o sabe –, são, com
efeito, estados completamente indiferentes e de quinta ordem
considerados em relação ao valor dos instintos: dito de maneira mais
rigorosa, o inteiro conceito de causalidade espiritual é falso.”4?
Porque considera real uma causalidade imaginária, o Cristianismo
dogmático degenera a práxis cristã; esse é o sentido da frase: De fato
não houve em absoluto cristãos. Essa degeneração resulta de uma
interpretação falsificadora. O ‘cristão’ é aquele cuja forma de vida é
pretensamente determinada pelo que se acredita, por artigos de fé, pela
verdade revelada.
O anticristo visa resgatar a Cristianicidade. A reconstituição da
autenticidade perdida, cujos traços desfigurados ainda se conservam nos
Evangelhos, é o resultado de uma refinada hermenêutica que, desfazendo o
mal entendido, traz à luz o ‘verdadeiro tipo psicológico do Redentor’.
Trata-se de uma confusão entre o que Jesus de Nazaré pregou e o modo
como foi sentido e interpretado. O equívoco talvez só desaparecesse com o
rigoroso exame histórico dos textos, empregando-se métodos científicos
para apurar a “verdade sobre o que ele fez, disse, sobre como ele
propriamente morreu”.5?
Nada mais longe, porém, dos propósitos de Nietzsche. Usar os métodos
científicos sobre o que foi “traditado” pelos Evangelhos seria cometer
um atentado filológico. Quando os documentos essenciais são
Heiligen-Legenden (legendas sagradas), a cientificidade é fracasso
antecipado, ociosidade erudita.6?
Interessa a Nietzsche não a verdade histórica, ou seja, o texto da
verdadeira pregação do Cristo, mas a reconstituição de seu tipo
psicológico. É a pergunta genealógica pela personalidade que poderia ter
vivido e ensinado aquilo que os Evangelhos a ele atribuem que desfaz o
mal entendido. “O que a mim me importa é o tipo psicológico do Redentor.
Este poderia, com efeito, estar contido nos Evangelhos, apesar dos
Evangelhos, ainda que muito mutilado ou sobrecarregado com traços
estranhos.”7?
Como agiografia, os Evangelhos são, para Nietzsche, um gênero
literário. Eles fornecem o palimpsesto para o trabalho filológico, do
qual brota uma “re-interpretação” do perfil psicológico de Jesus. A
hermenêutica do Anticristo consiste, por um lado, em despojar o tipo
psicológico do Redentor de traços alheios com os quais foi
sobrecarregado e, de outro lado, em reparar as mutilações que o
desfiguram.
“Não é com erudição filológica e com metodologia que Nietzsche quer
se aproximar da figura de Jesus, mas por meio de uma reconstituição de
seu tipo psicológico [...] Nietzsche se coloca perante a tradição
evangélica de modo inteiramente crítico. No entanto, como obtém ele a
figura positiva de Jesus, o tipo psicológico do Redentor? Duas passagens
bíblicas ofereceram-lhe claramente um ponto de ancoragem8?; por que
essas duas, não o esclarece o próprio Nietzsche. A despeito de seu
professado rigor de fisiólogo, é necessário constatar: a reconstrução ou
re—cons–tituição do tipo do Redentor funda-se em conhecimento
intuitivo, em intuição (Einfühlung).”9?
Nietzsche intui os traços da vida e do ethos de Jesus para, a partir
daí, liberá-lo dos acréscimos incompatíveis com sua natureza. Essa
intuição congenial é viabilizada pela literatura. É por meio dessa fonte
que se pode compreender por que Nietzsche resume o essencial do
Evangelho nos dois versículos de Mateus e Lucas acima mencionados. Numa
passagem de Ma Religion escreve Tolstoi: Le passage qui devint pour moi
la clef de tout fut celui qui est renfermé dans les 38e. E 39e. Versets
de Math. V: Vous avez appris qu’il a été dit: œil pour œil et dent pour
dent; et moi, je vous dit de ne point résister au mal que l’ont veut
vous faire.10? Nietzsche complementa: “O reino de Deus está dentro de
vós”; “Não resistais ao mal” (Lucas XVII, 21 e V, 39); nisso ele
discerne a medula espiritual do autêntico ensinamento de Jesus, a única
doutrina compatível com seu tipo psicológico. O acesso é franqueado pela
literatura:
“Conheço apenas um único psicólogo que viveu num mundo onde o
Cristianismo é possível, onde um Cristo pode surgir a qualquer instante…
É Dostoievski. Ele adivinhou Cristo: e ele permaneceu sobretudo
instintivamente protegido de se representar esse tipo com a vulgaridade
de um Renan.”11?
Para Nietzsche, Jesus pregara uma religião do amor, um budismo dos
inocentes de Deus, para quem a bem-aventurança consistiria na vivência
atemporal da realidade interior, na fuga de qualquer rigidez moralista.
“Que significa a ‘Boa Nova’? A vida verdadeira, a vida eterna foi
encontrada – ela não é prometida, está aqui, está dentro de vós: como
vida no amor, no amor sem subtração, nem exclusão, nem distância. Todos
são filhos de Deus – Jesus não reclama nada exclusivamente para si –,
enquanto filho de Deus, todo homem é igual ao outro.”12? Aqui não são
firmados artigos de fé; trata-se, antes, de uma prática evangélica13? de
comunhão com o “Pai” e com o próximo. O mundo externo adquire a
consistência diáfana da parábola, alegoria da verdadeira realidade
interna, sem pecado, culpa ou expiação.
Sem distância entre o homem e Deus, apenas a comunhão universal na
inocência, como na pureza das crianças (‘Olhai os lírios do campo’;
‘contemplai as aves do céu’).
A vida, a mensagem e a morte do Redentor não eram, para Nietzsche, senão essa prática, nenhuma fórmula, nenhum rito, nenhum cerimonial.
“O ‘reino de Deus’ é um estado do coração – não algo situado ‘acima
da terra’ ou a que se chegue ‘depois da morte’ –, a hora, o tempo, a
vida física e suas crises não existem em absoluto para o Mestre da Boa
Nova… O reino de Deus não é algo que se aguarde, não tem um ontem, nem
um “além de amanhã”, não chega ‘dentro de mil anos’ – é uma experiência
em um coração, está em toda parte, não está em lugar algum.”14?
Essa ventura suprema, que transpõe o abismo entre Deus e homem, assim
como entre os homens, conduziu Jesus à morte, em conseqüência da
pregação. O que dela permanece não é uma doutrina, mas um ethos perante
os acusadores, a não-resistência ao ódio, mesmo à morte na cruz, antes
compadecer-se de quem pratica o mal contra si.
“As palavras ditas ao ladrão na cruz contêm todo o Evangelho. Este
foi, em verdade, um homem divino, um ‘filho de Deus’, diz o ladrão. Se
tu sentes isso – responde o Redentor –, então também estás no Paraíso,
és tu também um filho de Deus… Não se defender, não se encolerizar, não
tornar responsável, não opor resistência, nem sequer ao mau, amá-lo.”15?
Em jargão político, Jesus seria, para Nietzsche, um “santo
anarquista”16, que atraíra o povo simples, os ‘pecadores’ e excluídos do
Judaísmo oficial, em conjuração contra a ordem dominante; pois a
linguagem empregada por ele, “caso fosse para confiar nos Evangelhos,
ainda hoje também teria conduzido à Sibéria”.17? Para seus
contemporâneos, sua pregação o tornava um contestador político da ordem
vigente. Contradição, porém, que não se encontrava nele, mas em sua
interpretação.
Para Nietzsche, Jesus não era um revolucionário, e sim, ‘com alguma
tolerância na expressão’, um espírito livre. Que essa tolerância não lhe
deve ser imputada apenas a descrédito, pode-se depreendê-lo da
psicologia do ressentimento. Segundo Nietzsche, o espírito que se tornou
livre teve de amargar em si muita negatividade, já que não se libertou
sem ter ultrapassado muito de seus mais arraigados preconceitos. Jesus,
porém, não valora negativamente homem e mundo. Consideradas as coisas
mais de perto, afirma Nietzsche, “jamais teve ele um motivo para negar o
mundo, ele jamais cogitou do conceito eclesiástico do mundo.
Precisamente a negação é para ele inteiramente impossível”.18?
Aqui seria oportuno cotejar o tipo psicológico do Redentor com a
valoração moral escrava e ressentida, tal como essa se apresenta em Para
a genealogia da moral. Nessa obra, ao descrever a dupla gênese da
oposição entre Bem e Mal, Nietzsche assim diferencia a moral afirmativa
dos senhores da moral negativa dos escravos:
“Toda moral nobre brota de um triunfante dizer sim a si próprio, a
moral dos escravos diz não, logo de início, a um ‘fora’, a um ‘outro’, a
um ‘não si mesmo’: e esse não é seu ato criador. Essa inversão do olhar
que põe valores – essa direção necessária para fora, em vez de
voltar-se para si próprio – pertence justamente ao ressentimento: a
moral dos escravos precisa sempre, para surgir, de um mundo oposto e
exterior – sua ação é, desde o fundamento, por reação”.19?
Ao tipo psicológico do Redentor não pertence negatividade, oposição,
nem também o ressentimento. Sua práxis é, pois, afirmativa, tendo sua
fonte na vivência da bem-aventurança interior. Nele, a liberdade
espiritual é a libertação do espírito de vingança. Ora, espírito de
vingança é, para Nietzsche, torturante prisão e impotência. Sendo assim,
a vida de Jesus é um caso paradoxal: depurado do espírito de vingança, a
práxis evangélica não constitui uma modalidade de ressentimento;
vivendo de sua própria plenitude, ela se configura como afirmativa,
porém numa ambiência histórico-espiritual de negatividade. Isso a
aproxima do Budismo, na medida em que nesse se valoriza “uma grande
mansidão de ânimo e liberalidade de costumes, a ausência completa de
militaris-mo… Como meta suprema, busca-se a jovialidade, a calma, a
ausência de desejos, e essa meta se alcança”.20?
Sabemos que, para Nietzsche, Budismo e Cristianismo são religiões da
decadência. Entre elas, porém, vigora uma diferença abissal: o Budismo é
manifestação da decadência ingênua, enquanto o Cristianismo se
configura como decadência hostil, que aspira pelo domínio:
“O Budismo é uma religião para homens tardios, para raças que se
tornaram bondosas, mansas, superespiritualizadas, que sentem dor com
demasiada facilidade (a Europa está longe de estar madura para ele): ele
é uma recondução dessas raças à paz e à jovialidade, à dieta
espiritual, a certo endurecimento no corporal. O Cristianismo quer
dominar sobre animais de rapina – a debilitação é a receita cristã para o
amansamento, para a ‘civilização’. O Budismo é uma religião para a
conclusão e o cansaço da civilização, o Cristianismo sequer a encontra
diante de si, sob certas circunstâncias, ela a funda”.21?
Isso enseja um novo paralelo: para Nietzsche, também a Europa do
final do século 19 vive um período de ocaso – os ‘espíritos livres’ são
homens tardios, legatários dessa herança espiritual acumulada. Por isso,
Nietzsche pressente, como fenômeno característico do declínio cultural
da Europa de seu tempo, a ascensão de um budismo europeu.
Ora, sendo essa a situação da Europa, de acordo com a genealogia de
Nietzsche, caberia perguntar: não estaria se anunciando, para o futuro
da Europa, um amadurecimento possível daquele budismo ocidental? Não
seria esse o kairós para um renascimento da Christlichkeit? Não seria
por isso que Nietzsche vislumbrava não no Cristianismo histórico, mas no
Ser-Cristão uma permanente possibilidade de vida?
“O Cristianismo é em todo instante ainda possível… Ele não está
ligado a nenhum dogma insolente que se enfeitou com seu nome, não
necessita da doutrina de um Deus pessoal, nem da culpa, nem da
imortalidade, nem da redenção, nem da fé, ele simplesmente não tem
necessidade de qualquer metafísica, menos ainda do ascetismo, menos
ainda de uma ‘ciência natural’ cristã. Quem diz hoje: ‘Eu não quero ser
soldado’, ‘eu não me preocupo com tribunais’, ‘os serviços, a polícia,
não são exigidos por mim’, esse seria um cristão… justamente aquilo que
é, em sentido eclesiástico, o cristão, é o anticristão. A práxis do
Cristianismo não é nenhuma fantasmagoria, tampouco a práxis do Budismo o
é: é um meio para ser feliz.”22? Utopia presentista dos simples de
coração, sem arché nem escatologia, sem tribunal da história ou final
apocalíptico dos tempos – o Cristianismo é um estilo de vida, a todo
instante possível.
Essa reflexão comporta duas indagações: 1) a reconstituição
genealógica da psicologia do Redentor deriva de duas realidades
fisiológicas o essencial do Evangelho. Essas ‘realidades’ são mais
indicativas de debilidade do que de força ascendente:
“Ódio instintivo à realidade: conseqüência de uma extrema capacidade
de sofrimento e excitação, que já não quer, de modo algum, ser tocada,
pois sente de um modo demasiado profundo todo contato. A exclusão
instintiva de toda aversão, de toda inimizade, de todas as fronteiras e
distâncias no sentimento: conseqüência de uma extrema capacidade de
sofrimento e excitação, que sente com desprazer [...] insuportável todo
opor-se”.23? Essa ‘realidade’ fisiológica é interpretada por Nietzsche
como uma forma sublime de hedonismo, de epicurismo. Jesus e Epicuro
seriam, assim, decadentes típicos, figuras crepusculares da civilização.
“A fuga da dor, até mesmo no infinitamente pequeno na dor – ela não
pode terminar em nada além do que numa religião do amor.”24?
2) Seria isso, porém, apenas esgotamento, ou também sinal de uma nova
potência, que teria alcançado um poder sobre si mesma e, como supremo
autodomínio, se tornado forte o suficiente para poder renunciar às
formas mais grosseiras de vontade de poder? Não estaríamos aqui em
presença de uma figura de auto-superação e auto-supressão por
sublimação?
Em todo caso, há indicações abundantes dessas vertigens do paradoxo
em Nietzsche. Em seu Zaratustra, por exemplo: “Quando o poder se torna
clemente e desce até o visível: beleza denomino eu tal descender. E de
ninguém quero mais beleza do que precisamente de ti, violento: seja tua
bondade tua derradeira autoviolentação. Esse é, com efeito, o mistério
da alma: só quando a abandonou o herói é que se aproxima dela, em
sonhos, o além-do-herói”.25?
Conversão da força em beleza, uma vez atingido o ponto culminante no
desenvolvimento de uma potência cultural – não é isso mesmo que
Nietzsche chama de catástrofe? Não significa ela um momento de crise que
completa e consuma as virtualidades inscritas no destino de um ciclo
cultural e, ao fazê-lo, descerra um novo começo, uma transvaloração de
todos os valores?
Argumentando em favor de uma resposta positiva a essa questão,
pode-se invocar o exemplo da própria filosofia de Nietzsche. Esse ‘homem
tardio’ vivenciou como o proprium de sua inscrição na tradição
metafísica precisamente a crise que marca o final de um ciclo histórico
da cultura no Ocidente. Destruídos os ‘ídolos’ supremos dessa cultura,
que possibilidades restariam para a moral e seus valores? Ao identificar
na probidade intelectual a derradeira virtude, Nietzsche recorreu a
essa metáfora da catástrofe.
“A própria moralidade cristã, o conceito de veracidade, tomado cada
vez mais rigorosamente, o refinamento de confessores da consciência
cristã, traduzido e sublimado em consciência científica, em asseio
intelectual a qualquer preço [...] é por esse rigor, se é que por alguma
coisa, que somos justamente bons europeus e herdeiros da mais longa e
mais corajosa auto-superação da Europa.”26?
Não se poderia retomar nesse sentido a pergunta pelo Cristianismo
como uma práxis sempre ainda possível? Isto é, como cuidado para com o
que permanece seminal nas raízes éticas mais profundamente implantadas
em nossa história de formação?
Oswaldo Giacoia Júnior
professor adjunto de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade de Campinas (Unicamp) e autor de Nietzsche – Para além do bem e do mal (ed. Jorge Zahar), dentre outras obras.
professor adjunto de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade de Campinas (Unicamp) e autor de Nietzsche – Para além do bem e do mal (ed. Jorge Zahar), dentre outras obras.
Notas
1 Nietzsche, F. Der Antichrist. Fluch auf das Christenthum. Parágrafo XXXIX. In: Nietzsche, F. Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe (KSA), ed. G. Colli/M. Montinari, Berlin/New York/München: de Gruyter/DTV. 1980, vol. 6. p. 211.
2 Id., p. 212.
3 Cf. Id., p.p. 211-212.
4 Ibid.
5 Id. XXIX, op. cit., p. 199.
6 Cf. Id. XXVIII, op. cit., p. 198s.
7 Id. XXIX, op. cit., p. 199.
8 O autor se refere a Mateus V: 39 e Lucas XVII: 21.
9 Kühneweg, U. Nietzsche und Jesus – Jesus bei Nietzsche. In: Nietzsche-Studien, vol. 15, 1986. p.p. 382-397.
10 Transcrito no volume de comentários dos editores, nr. 14, da KSA, op. cit., p. 441. Comparar com o parágrafo XXIX de O Anticristo.
11 Nietzsche, F. Fragmento Póstumo nr. 15 [9], da primavera de 1888. In: KSA. Vol. 13. p. 409.
12 Nietzsche, F. Der Antichrist, XXIX, op. cit., p. 200.
13 Cf. Id. XXXIII, op. cit., p. 205s.
14 Id. XXXIV, op. cit., p. 207.
15 Id. XXXV, op. cit., p. 207s.
16 Cf. Id. XXVII, op. cit., p. 198.
17 Ibid.
18 Nietzsche, F. op. cit. Parágrafo XXXII. p. 204.
19 Nietzsche, F. Para a genealogia da Moral. I Dissertação. Trad. Rubens R. Torres Filho. In: Obras Incompletas. Coleção Os Pensadores, 1a. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 309.
20 Nietzsche, F. Der Antichrist, XXI, op. cit., p. 187s.
21 Id. XXII, op. cit., p. 189.
22 Nietzsche, F. Nachgelassene Fragmente. In: KSA.Vol. 13, fragmento nr. 11 [365]. p. 161s.
23 Nietzsche, F. Der Antichrist, XXX, op. cit., p. 200s.
24 Ibid.
25 Nietzsche, F. Also Sprach Zarathustra, II: Von den Erhabenen. In: KSA. Vol. 4.
26 Nietzsche, F. Para a genealogia da moral III. In: Obras Incompletas, op. cit., p. 331s.
1 Nietzsche, F. Der Antichrist. Fluch auf das Christenthum. Parágrafo XXXIX. In: Nietzsche, F. Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe (KSA), ed. G. Colli/M. Montinari, Berlin/New York/München: de Gruyter/DTV. 1980, vol. 6. p. 211.
2 Id., p. 212.
3 Cf. Id., p.p. 211-212.
4 Ibid.
5 Id. XXIX, op. cit., p. 199.
6 Cf. Id. XXVIII, op. cit., p. 198s.
7 Id. XXIX, op. cit., p. 199.
8 O autor se refere a Mateus V: 39 e Lucas XVII: 21.
9 Kühneweg, U. Nietzsche und Jesus – Jesus bei Nietzsche. In: Nietzsche-Studien, vol. 15, 1986. p.p. 382-397.
10 Transcrito no volume de comentários dos editores, nr. 14, da KSA, op. cit., p. 441. Comparar com o parágrafo XXIX de O Anticristo.
11 Nietzsche, F. Fragmento Póstumo nr. 15 [9], da primavera de 1888. In: KSA. Vol. 13. p. 409.
12 Nietzsche, F. Der Antichrist, XXIX, op. cit., p. 200.
13 Cf. Id. XXXIII, op. cit., p. 205s.
14 Id. XXXIV, op. cit., p. 207.
15 Id. XXXV, op. cit., p. 207s.
16 Cf. Id. XXVII, op. cit., p. 198.
17 Ibid.
18 Nietzsche, F. op. cit. Parágrafo XXXII. p. 204.
19 Nietzsche, F. Para a genealogia da Moral. I Dissertação. Trad. Rubens R. Torres Filho. In: Obras Incompletas. Coleção Os Pensadores, 1a. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 309.
20 Nietzsche, F. Der Antichrist, XXI, op. cit., p. 187s.
21 Id. XXII, op. cit., p. 189.
22 Nietzsche, F. Nachgelassene Fragmente. In: KSA.Vol. 13, fragmento nr. 11 [365]. p. 161s.
23 Nietzsche, F. Der Antichrist, XXX, op. cit., p. 200s.
24 Ibid.
25 Nietzsche, F. Also Sprach Zarathustra, II: Von den Erhabenen. In: KSA. Vol. 4.
26 Nietzsche, F. Para a genealogia da moral III. In: Obras Incompletas, op. cit., p. 331s.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Diante das palavras do Papa Francisco o que importam as palavras de Jesus?
1.
Jesus
Cristo: “Bem-aventurados
sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo tipo
de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande
a vossa recompensa nos céus.” (Mt 5, 12)
2.
Jesus Cristo: “Digo, porém, a vós que me ouvis: Amai os
vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei aos que vos maldizem,
orai pelos que vos insultam. Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a
outra; e ao que te tira a capa, não lhe negues a túnica. Dá a todo o que te
pede; e ao que tira o que é teu, não lho reclames. (Lucas 6:27-31)
3.
Papa
Francisco: "É verdade que não se pode agir violentamente. Mas se o Dr.
Gasbarri (auxiliar do papa), um grande amigo, falar alguma coisa ruim sobre
minha mãe, ele pode esperar um soco.
Mas é normal. Você não pode provocar, não pode insultar a religião dos
outros." Pressupõe-se aqui uma justificativa das reações?
4.
Vídeo do YOUTUBE com o Papa falando sobre o
assunto:
Aroldo da Cruz Lara
sábado, 10 de janeiro de 2015
O Amor de Maria Madalena por Jesus na Noite Escura da Alma
1. Por isso Maria
Madalena, sendo tão estimada em sua pessoa, como antes o era, não se importou
com a turba de homens, consideráveis ou não, que assistiam como convidados ao
banquete; nem reparou que não lhe ficava bem ir chorar e derramar lágrimas
entre essas pessoas; tudo isto fez, a troco de poder chegar junto d’Aquele por
quem sua alma estava ferida e inflamada. É ainda embriaguez e ousadia própria
do amor: saber que seu Amado estava encerrado no sepulcro com uma grande pedra
selada, cercado de soldados guardando-O para seus discípulos não O furtarem (Jo
20,1), e, todavia, não ponderar qualquer destes obstáculos, mas ir, antes do
romper do dia, com unguentos a fim de ungi-Lo.
2. E, finalmente,
essa embriaguez e ânsia de amor fez com que ela perguntasse àquele que lhe
parecia ser o hortelão, se havia furtado o corpo do sepulcro. Pediu-lhe ainda,
se tal fosse o caso, que dissesse onde o havia posto, para ela ir buscá-Lo (Jo
20, 15). Não reparou que tal pergunta, em livre juízo e razão, era disparate;
pois, é claro, se o homem o havia furtado, não havia de confessar, e, menos
ainda, de o deixar tomar. Tal é a condição do amor em sua força e veemência:
tudo lhe parece possível, e imagina que todos andam ocupados naquilo mesmo que
o ocupa. Não admite que haja outra coisa em que pessoa alguma possa cuidar, ou
procurar, senão o objeto a quem ele ama e procura. Parece-lhe não haver mais
nada que buscar, nem em que se empregar, a não ser nisso, e julga que todos o
andam buscando. Por esta razão, quando a Esposa saiu a procurar seu Amado,
pelas praças e arrabaldes, ia pensando que todo o mundo também O procurava, e
assim dizia a todos que, se O achassem, dissessem a Ele o quanto penava por seu
amor (Cânt 5, 8). De semelhante condição era o amor desta Maria; julgava ela
que, se o hortelão lhe dissesse onde havia escondido o corpo de seu Amado, ela
mesma o iria buscar e o carregaria, por mais que lhe fosse proibido.
Fonte: A Noite Escura
da Alma – São João da Cruz
Capítulo XIII: Outros
Saborosos Efeitos Produzidos na Alma por esta Noite Escura de ContemplaçãoFundamentalismo, Inquisição e Neurose
Existe uma relação estreita entre fundamentalismo,
neurose e psicopatia sob a máscara da religiosidade. E relaciono essa posição
extremista ao procedimento dos inquisidores, os quais satisfaziam as suas
necessidades reprimidas através da violência, torturas e abusos sexuais.
“Como
demonstrou a antropóloga Mary Douglas, cada sociedade tem suas próprias ideias
sobre o que é e o que não é puro, e desenvolve técnicas para lidar com o que
percebe como anômalo. Contudo, essas ideias não predominam quando a sociedade é
sã. Quando a limpeza é a principal obsessão, a neurose se instala. A piedade se
impõe.”
Os efeitos da Santa Inquisição ainda se impõem ao
mundo pós-moderno. Os fundamentalistas religiosos buscam a pureza do mundo,
isto segundo o seu defeituoso filtro. Ao mesmo tempo demonstram apenas seus
desejos reprimidos de violência como militantes.
“Mais uma vez
nos vemos no abismo entre as intenções e os efeitos da Inquisição. Com suas
noções de conformidade sexual, a instituição declarava que desejava uma
sociedade moralmente pura; porém, como vimos no caso das beatas (...), a
sociedade da qual era a guardiã moral estimulava neuroses sexuais que levavam a
resultados que eram tudo, menos puros. Havia uma preocupação aparente com a
moralidade, mas nenhuma ideia do que isso podia provocar nas emoções íntimas
das pessoas. A preocupação obstinada com os detalhes dos casos deixava os
investigadores cegos aos sentidos morais e emocionais do inquirido.”
Por
outro lado, essas ações fundamentalistas reproduzem e estimulam reações nas
vítimas (de igual modo).
“A maneira
como a ortodoxia religiosa extrema — encorajada pela Inquisição nas sociedades
ibéricas — levava diretamente à neurose...”.
Nós reprimimos nossos instintos de retribuir aos
fundamentalistas na mesma moeda incluindo todo e todos aquilo que eles
representam: países, raça, religião, rituais, etc. Freud explica.
Fonte: Green, T. INQUISIÇÃO,
O Reino do Medo. Editora Objetiva, 385 pg.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Tópicos Introdutórios à Teologia Sistemática IV

A CRISTOLOGIA
A partir de hoje, e nos próximos três encontros,
estudaremos alguns temas de Cristologia e sobre seu lugar na Teologia
Sistemática. Nosso pressuposto básico, como já vimos, é o de que Deus não
permitiu, em sua graça, que permanecêssemos distante de si mas graciosamente se
revelou através da pessoa de Jesus Cristo. Cristo é, desta forma, a revelação
privilegiada de Deus; a maneira através da qual Deus pode ser um Deus conosco, ou um Deus para nós.
Nosso breve caminho sobre a cristologia será
trilhado em três momentos. Neste primeiro momento nos dedicaremos às questões
relativas ao grande debate existente entre o Jesus histórico e ao Cristo da fé.
Nas próximas aulas nos deteremos mais sobre sua pessoa e obra examinando o que
diz a Escritura e o dogma da Igreja.
I.
A problemática da Cristologia
contemporânea
1. O Início dos Problemas
Como introdução é importante destacar que boa parte
do século XIX foi gasto em um caloroso debate sobre a pessoa de Jesus. Houve
tanta discussão sobre o tema que muitos chamaram este período de “segundo
período de formulação cristológica”.
Todo este debate ocorreu em função da importância
que a história acabou por assumir neste período. Assim como acontecera com as
ciências da natureza, a história acabara de se constituir como uma ciência em
um clima de grande otimismo. Neste momento, diz Bernard Sesboüé, ela (a
história) ainda não possuía “consciência da complexidade dos problemas
colocados pela distância histórica entre o objeto estudado e o sujeito que o
estuda”.[1]
Sua abordagem também acreditava ser possível também um conhecimento positivo e
pleno de todos os fatos, acreditando poder chegar à verdade em toda a sua
coerência.
Sem
dúvida seria importante nos aprofundar sobre este debate no século XIX, no
entanto, por absoluta falta de espaço, e por acreditar que existe muito
material revelador em português, nosso tratamento deste período será apenas
pontual. Muitas contribuições para o debate cristológico ocorreu no século XIX,
e creio que é importante mencionar pelo menos os nomes de Hermann Reimarus
(1694-1768), reconhecido como o fundador do movimento biográfico; Heinrich
Paulus (1761-1851), que se caracterizou por tentar explicar cada milagre com
uma resposta convincente; David Friedrich Strauss (1808-1874), para quem a
história de Jesus nos evangelhos deve muito à mitologia; e Ernest Renan
(1823-1892), que apresentou a mais popular biografia de Jesus, escrita a partir
de uma perspectiva romântica.
A
distinção entre o “Jesus da história” e o “Cristo da fé”, no entanto, apareceu
pela primeira vez em um livro de M. Kähler chamado Der sogenannte historische Jesus und der geschichtliche, biblich
Christus, publicado em 1892. Deve-se, porém, a figura de Adolf Harnack, um
dos maiores historiadores do dogma, a popularização da dicotomia existente
entre a “pessoa humana de Jesus”, que nasceu, cresceu e morreu como todos os
demais mortais e o “Cristo da fé”, que seria o resultado da reflexão, da
elaboração teológica, e do desenvolvimento do dogma da Igreja, a partir de
categorias e pressupostos gregos. Este Cristo da fé era o resultado da pregação
da Igreja.
Segundo
Harnack, em seu livro a Essência do cristianismo, “o evangelho, como Jesus o
praticou, não anuncia o Filho, mas somente o Pai”.[2]
Toda tentativa posterior de apresentação de um “Cristo” com status já
estabelecido na Igreja, segundo ele, é influência helênica e deve ser
rejeitada.
Me
parece que o que pode ser encontrado na base desta crítica, é a imagem de um
mundo fechado para o transcendente, ou seja, uma postura racionalista que elimina
o “milagre” a priori como sendo algo
próprio de uma mente “inferior”.
Desta
forma, o pressuposto racionalista, associado com o método histórico-crítico e
com o desejo de harmonizar a fé cristã com a consciência cultural da época,
acabou por separar o personagem histórico (Jesus) do cerne da pregação
apostólica (Cristo).
2. As Possibilidades do encontro com Jesus
Mais
tarde, através dos trabalhos de Rudolf Bultmann (1884-1976), esta idéia recebeu
mais apoio quando este exegeta procura demonstrar que a mensagem apresentada
pelo Novo Testamento é “expressa, coerentemente com a antiga imagem mitológica:
encarnação de um ser preexistente, morte expiatória, ressurreição, descida aos
infernos, ascensão ao céu, retorno no final dos tempos”.[3]
O que
fazer diante deste conteúdo mítico no Novo Testamento? A resposta dada por
Bultmann é “demitizar”. Mas o que é isto? Ele responde: criticar a imagem do
mundo expressa no mito e, ao mesmo tempo, buscar sua verdadeira intenção. Este
era o problema com a teologia liberal, ela procurava demitizar destruindo o
mito e não interpretá-lo existencialmente.
Para
Bultmann, o Cristo da fé era resultado de uma produção mítica que deveria
sofrer este processo de demitização. Quanto ao Jesus histórico, ele era tanto
irrelevante quanto inacessível.
Diante a
afirmação de Bultmann de que o Jesus histórico é irrelevante para o cristo da
fé, Kaesemann, um de seus alunos, passa a assumir uma postura na qual procura
evitar simultaneamente a posição de Bultmann, o racionalismo e o
sobrenaturalismo, identificado por ele com um sacrificium intellectus.
Para
Kaesemann o Jesus histórico era importante para a igreja primitiva, uma vez que
esta demonstrou que pretendia evitar que o mito tomasse o lugar da história ou
que um ser celeste e gnóstico assumisse o lugar do homem de Nazaré.
Ele
compreende, com Bultmann, que a cruz e a ressurreição assume um lugar central
na fé da Igreja. Mas o Kerigma, ou a pregação da Igreja primitiva, só tem
sentido porque aponta para um fundamento histórico anterior à cruz. Portanto,
de alguma forma, podemos “acessar” o Jesus histórico. Ele não está de todo
perdido. Segundo Rosino Gibellini:
“Kaesemann afirma que o Jesus
histórico, ainda que não tenha jamais dito explicitamente ser o Messias, falou
e agiu, contudo, com tal autoridade que todos perceberam nele um ser superior.
Somente na proclamação da Igreja pós-pascal é que o implícito se torna
explícito”.[4]
A mesma
crítica é feita pelo teólogo francês O. Cullmann, para quem, Bultmann pretendeu
demitizar justamente aquilo que não é permitido demitizar, ou seja, os fatos da
história.
Outra
forte reação foi a de J. Jeremias, para quem Bultmann ameaça esvaziar a
mensagem evangélica daquele que é seu conteúdo central: a encarnação.
Segundo
este teólogo, a fixação de Bultmann por desconsiderar os textos evangélicos
como dignos de fé é tão forte que ele ameaça substituir Jesus por Paulo, na
exposição sobre o cristianismo. Para Jeremias, Bultmann não consegue entender
que Paulo sem Jesus é incompreensível. O que é pior, no entanto, é que ao
desconsiderar completamente o Jesus da história, Bultmann acaba por retornar ao
docetismo. Nas palavras de Prosper: “separar o querigma da história significa
cair nos excessos do docetismo ou do ebionitismo”.[5]
O início de nossa fé não pode ser identifiada apenas no kerígma, mas no fato
histórico da vida real de Jesus, ou seja, “o Jesus histórico está para o Cristo
da fé assim como a chamada para a resposta”.[6]
Ao afirmar a completa e radical diferença entre o Jesus histórico e o Cristo da
fé, Bultmann peca, porque elimina a causa que produz o efeito.
3. Considerações Relevantes
Diante do exposto acima, precisamos esclarecer
alguns pontos que julgamos relevantes para o estudo da Cristologia bíblica e
para uma aproximação adequada e relevante para o teólogo em nossos dias.
A. A
visão do Novo Testamento é mítica
Qualquer estudioso sério da história da ciência
compreende sem maiores complicações que os documentos bíblicos foram todos
escritos em um período pré-científicos e que, portanto, não se permitem estudar
com os mesmos instrumentos conceituais com que lemos, por exemplo, o jornal de
hoje.
É
verdade que nas Escrituras encontramos vários tipos de literatura, como por
exemplo, a prosa, a poesia e também o mito. É claro que as pessoas daquela
época possuíam uma idéia de mundo dividido em três pavimentos; é claro que eles
atribuíam aos deuses ou aos espíritos qualquer manifestação que hoje julgamos
natural, em função das informações de que dispomos; é óbvio que o
desconhecimento dos vírus e dos micróbios, faziam com que eles associassem a
doença à ação de espíritos malignos e que os feiticeiros possuíam também a
atribuição de curar. Mas com certeza, eles possuíam também a noção do que era
história e o respeito pelas ações de Deus dentro da história de seu povo.
O
problema com o racionalismo é que seus pressupostos anti-sobrenaturalistas de
um mundo fechado acabam por colocar nas histórias sobre Jesus ou o título de
fraude, ou o de mito. Ou como disse Domingo Muñoz León: “a pesquisa
racionalista sobre os evangelhos é crítica apriorística e fechada ao mundo
divino”.[7]
Creio
firmemente ser possível a convivência pacífica de uma concepção de mundo aberto
à ação de Deus e uma postura historico-crítica que respeite os diversos tipos
de textos e que utilize a demitização como ferramenta hermenêutica relevante,
respeitável e legítima.
B. A
mensagem da Igreja primitiva é comprometida
Tenho a impressão que uma leitura, mesmo não
acurada, dos textos do Novo Testamento podem revelar muito claramente que seus
autores não pretendiam escrever uma obra isenta de pressupostos ou prenoções. O
Novo Testamento não pretende apresentar informações isentas e neutras sobre a
pessoa de Jesus Cristo. Pelo contrário, quem escreve, escreve porque está, não
apenas comprometido com a pessoa, mas também porque qualquer postura neutra é
impossível. O próprio Bultmann já afirmou ser impossível a exegese livre de
pressupostos.
Os evangelistas, ao escreverem seus textos, não
pretendiam apresentar um trabalho jornalístico sobra a vida de Jesus. Os
evangelhos não são biografias conforme entendemos modernamente. Eles são
documentos comprometidos com uma pessoa e com um propósito teológico próprio e
particular. Cada um deles pretende falar a um publico diferente e por isso
“escolhem” os fatos que podem ser melhor trabalhados para atingir seu objetivo.
Como nos lembra René Latourelle: “essa mensagem não é neutra, mas proclamada no
contexto de um compromisso”.[8]
O único Jesus que pode ser encontrado nos textos dos evangelhos, é o Jesus que
é confessado e professado como Senhor.
Não queremos advogar a “neutralidade dos textos
bíblicos”. Pelo contrário, queremos admitir que havia compromisso da Igreja
primitiva com este Jesus, chamado Cristo. E sua pregação, além de comprometida
é o testemunho de fé de uma comunidade que recebe Jesus de Nazaré como o
Salvador, Senhor, Messias, Filho de Deus e em consequência disso, objeto de
louvor e adoração.
Mas, além disso, estes textos são também textos que
nos convidam ao compromisso. Há, portanto neles, uma intenção apologética e
evangelística. Há um convite ao compromisso.
Finalmente, precisamos entender que, embora sejam
textos comprometidos, nem por isso são falsos. A tarefa do teólogo e do exegeta
é tentar encontrar, por trás do discurso tematizado e teologizado que foi
colocado na boca de Jesus, senão as ipissima
verba Jesu, pelo menos o conteúdo essencial de seus ensinamentos.
C. O
Jesus histórico é acessível
Depois
das afirmações feitas por Bultmann em seus livros e palestras, o mundo
teológico vê surgir uma tremenda reação ao exagero de suas colocações. As
principais reações ao projeto de Bultmann podem ser associados ao movimento da
“Nova Hermenêutica”, que refaz os estudos do acercamento ao texto do evangelho
à luz do segundo Heidegger; à figura de Ernest Käsemann, um de seus mais
brilhantes alunos; e Joaquim Jeremias.
Por
falta de espaço, nos limitaremos à crítica exposta por Jeremias e à sua
convicção de que é possível, sim, chegar ao Jesus histórico. Devemos, no
entanto, nos precaver sobre algo importante: não pretendemos retornar à
perspectiva da Leben-Jesu-Forschung,
contudo, estamos convictos de que certamente podemos chegar a Jesus de Nazaré,
como aquele que foi chamado de Senhor e Cristo, a partir de seus atos e ditos.
Jeremias
tem sido colocado entre os exegetas protestantes mais conservadores, ao lado de
Stauffer e Künneth. Para ele Bultmann o único resultado concreto do trabalho de
Bultmann foi a destruição e não a demitização. Bultmann foi alguém que minou a
fé cristã. Todas as suas críticas ao exagero bultmaniano podem ser lidas em um
brilhande opúsculo lançado em 1960 intitulado: Das Problem des historischen Jesus.
Neste
texto Jeremias reconhece que Bultmann foi feliz em chamar a atenção à
importância do Kerígma e à gratuidade da salvação. contudo, não poupa críticas
por haver “esvaziado o cristianismo de seu fato principal que é a Encarnação e
haver substituído Jesus por Paulo”.[9]
Como
vemos, para Joaquim Jeremias, o principal evento do cristianismo é a
Encarnação. Para ele, é justamente este evento que deve possibilitar a volta a
um Jesus histórico. Segundo Jeremias:
“A Encarnação implica que a história de Jesus se presta ao exame histórico e à crítica histórica; bem mais, ela o exige. Precisamos saber quem era o Jesus da história e qual foi sua pregação. Não temos o direito de afastar o escândalo da encarnação...a Encarnação é o ato pelo qual Deus se entrega, e isso não podemos deixar de aceitar”.[10]
Segundo
Jeremias, nós não apenas podemos, mas devemos buscar o Jesus histórico. Devemos
porque a existência das fontes escritas nos clamam para buscar aquele que serviu
de fundamento para o Kerígma. E não apenas isto, o próprio Kerígma nos impele
de volta à sua origem, exigindo saber mais sobre os fatos que o fizeram nascer.
Sim, concorda Jeremias, todo Kerígma é interpretação, mas interpretação de um
fato histórico anterior que o funda.
Aquilo
que as fontes e o Kerígma nos obriga fazer, nós efetivamente podemos fazer, uma
vez que estamos hoje melhor preparados e mais protegidos contra o perigo de
projetar nossa própria subjetividade na reconstrução da imagem de Jesus – erro
cometido pelos biógrafos do liberalismo.
Para
Jeremias há cinco fatores que nos permitem, hoje, Ter uma perspectiva mais
otimista sobre a aproximação ao Jesus histórico. Em primeiro lugar ele destaca
que a crítica literária está muito mais aperfeiçoada. Para ele, com seus novos
métodos mais precisos e refinados, o pesquisador pode ter acesso à tradição
evangélica atingindo até sua situação pré-literária.
Em
segundo lugar, Jeremias aposta na Formgeschiste.
Segundo nosso teólogo, a pesquisa sobre a história da forma hoje, nos
permite ir muito mais longe do que a crítica da forma. Para ele, a Formgerschiste nos permite chegar por baixo do estrato
helenístico existente no texto e atingir a tradição palestinense mais antiga
que está por traz e subjas ao texto que temos.
Mas ele
não para por ai. Para Jeremias, os resultados recentes das pesquisas históricas
e arqueológicas na palestina nos coloca diante de uma gama de informações tão
amplas e vastas como jamais foi visto. Hoje, temos um conhecimento muito mais
profundo sobre a palestina nos temos de Jesus. Recentes descobertas sobre a
literatura rabínica daquele tempo, da apocalíptica judaica e do essenismo de
Qumrân, nos faz acreditar que
“Tudo isso permite não apenas integrar Jesus na sua trerra e no seu tempo, mas ainda avaliar a novidade da piedade de Jesus no seu flagrante contraste com a piedade e aspirações dos contemporâneos”.[11]
Em
quarto lugar, Jeremias destaca que o conhecimento a que chegamos hoje sobre a
língua de Jesus (aramaico-galileu), nos faz crer que muitas variantes gregas,
nada mais são, do que variantes de traduções da mesma palavra aramaica. Um
significativo exemplo disso nos é colocado pelo bispo D. Terra quando ele
assevera que:
“Por exemplo, se a expressão
‘Abba’, usada por Jesus na oração, ou o ‘Amém’ na introdução solene de algumas
afirmações forem demonstrado ser uma novidade absolutamente original e
exclusiva de Jesus, então temos ai exemplos da ‘impssissima verba’ de Jesus,
mas também um contato direto com o pensamento de Jesus a respeito de si mesmo e
de sua missão”.[12]
Finalmente, Jeremias compreende que, as recentes
descobertas sobre a índole escatológica do pensamento de Jesus, são importantes
e eficazes para corrigir a tendência moderna de “psicologizar” a imagem de
Jesus. Segundo Jeremias, a pregação de Jesus estava “embebida” de sua convicção
acerca da “crise” iminente do juízo de Deus. Ao anunciar de forma tão marcante
a inauguração do Reino de Deus, Jesus ao mesmo tempo que se contrapõe à
religião oficial da época, reivindica para si uma autoridade singular e uma fé
absoluta.
Aqui
está mais uma novidade em Jesus. Só ele anuncia um Reino para os pobres e
miseráveis, fazendo-os participar agora da salvação. Jesus é o único que busca
os pecadores e não os “justos” para o seu Reino.
Diante
das reivindicações que Jesus faz, por exemplo ao se digir a Deus chamando-o de
“Abba”, o historiador é forçado ver nestes textos, não uma afirmação marginal
mas absolutamente central ao estudo do Novo Testamento. Para D. terra, ainda
resta uma questão para que jeremias Responda: qual a relação entre o evangelho
de Jesus e a pregação da Igreja?
Segundo Jeremias, há duas verdades das quais não
podemos nos afastar: primeiro que o evangelho de Jesus e a pregação da Igreja
não podem ser separados, pois se assim o fizesse-mos, criaríamos ou bem uma
história sem vida ou bem uma idéia surrealista. Em segundo lugar, contudo,
também não podemos esquecer que o evangelho de Jesus e a pregação da Igreja não
são a mesma coisa. A vida de Jesus é a Palavra de Deus através da qual Deus
interpela a humanidade; e a pregação da Igreja é o testemunho prestado a esta
revelação.
A crítica que Käsemann faz a Jeremias é contundente
e tem a ver com esta distinção. Ele critica Jeremias por reduzir a revelação à
pessoa de Jesus de Nazaré, à sua imagem e à sua mensagem. Segundo Käsemann o
que Jeremis faz não é muito diferente do que Bultmann fez. Enquanto este
reduziu a revelação apenas ao Kerígma da Igreja primitiva, aquele a identifica
apenas com o Jesus da história. Ou seja, o testemunho cede o lugar à história.
De tudo
o que foi colocado acima Latourelle, com coragem, arremata dizendo
categoricamente que “A distância entre o Jesus histórico e o Cristo da fé é
artificial e representa um falso problema”,[13]
uma vez que, fazendo dos dois um só nome, Jesus Cristo, a Igreja ressalta que
estamos tratando de uma mesma e só pessoa
D. O
Cristo da fé nos desafia
Finalmente, não podemos desconsiderar todo caráter
existencial que existe no Kerígma da Igreja. O testemunho da comunidade de fé nos
mostra um Cristo que nos chama a um compromisso e a uma obediência e
dependência última. Ele é aquele que nos desafia a, com ele, tomar nossa cruz e
seguir adiante no projeto de implantação do Reino de Deus, onde os pobres e
excluídos possuem lugar especial.
Sua cruz nos convida também a colocar nossa vida em
risco diante de uma sociedade utilitarista que explora os pobres e diante de
expressões religiosas que vivem à sombra do poder. Sua cruz é um convite à
nossa desestabilização e desencastelamento, ela nos coloca sempre sob o signo
do “risco”, mas, em consequência disso, sob o signo da vida autêntica.
Sua ressurreição é uma afirmação de que o “novo” já
surgiu, já irrompeu da morte, e que ela não foi forte o suficiente para segurar
o fluxo de vida que Jesus nos dá. Sua ressurreição nos faz ver o futuro com
esperança, com porfia, com uma profunda certeza de que, a qualquer momento, o
reino será instaurado e, enfim, a vitória final virá.
Encerro este texto com a letra de uma música
especial escrita por Homero Perera e Federico Pagura:
Porque ele entrou no mundo e em nossa história;
Porque quebrou o silêncio e a agonia;
Porque mostrou na terra sua glória;
Porque foi luz em nossa noite fria;
Porque nasceu em pobre estrebaria;
Porque viveu semeando amor e vida;
Porque partiu os corações mais duros
E levantou aos tristes e abatidos.
Por isso é que hoje temos esperança,
Por isso é que lutamos destemidos,
Por isso olhamos hoje com confiança
Para o porvir dos povos oprimidos 2X
Porque atacou corruptos mercadores
E denunciou maldade e hipocrisia,
Porque exaltou crianças e mulheres,
E condenou aos que de orgulho ardiam.
Porque levou a cruz de nossas penas
E saboreou o fel de nossos males;
Porque aceitou sofrer a nossa culpa
E assim morrer por todos os humanos.
Porque uma aurora viu sua vitória
Sobre as mentiras, sobre a morte e o medo.
Já nada pode interromper sua história,
Nem a chegada de seu Reino eterno.
4. Perigos da dicotomia
A história tem demonstrado que durante os últimos
dois milênios a Igreja tem visto um movimento pendular que ora aponta para o
Jesus histórico, ora destaca o Cristo da fé. Quando a Igreja de põe a trabalhar
apenas um dos aspecto levantados acima, infelizmente sentimos que ela deixa de
lado muitas dimensões importantes que a outra abordagem nos quer proporcionar.
Examinaremos agora o que ocorre com a Igreja que privilegia apenas um dos
aspectos da Cristologia.
A.
Privilegiar o Jesus histórico
Ao privilegiar apenas a abordagem do Jesus
histórico, a Igreja corre, pelo menos, os seguintes perigos: em primeiro lugar
ela pode cair na tentação de transformar Jesus em um revolucionário ou um sábio
qualquer, empobrecendo assim, a imagem correta de Jesus. Em segundo lugar, ao
valorizar apenas o Jesus histórico, deslocamos o critério da fé para a esfera
da praxis e com isso desconsideramos todo o testemunho da tradição da Igreja.
Finalmente a redução da cristologia apenas ao aspecto histórico e imanente,
tende a esvaziar o sentido do “encontro” com o ressuscitado e suas
conseqüências existenciais. Teologicamente, criamos uma dimensão neo-ariana,
que atenta para sua dimensão humana e descrê de sua divindade.
B.
Privilegiar o Cristo da fé
Por outro lado, quando nos voltamos apenas para a dimensão transcendente do Cristo glorificado, podemos levar a Igreja a cometer erros não menos perigosos. Citaremos apenas alguns deles.
Em primeiro lugar a diferença é sentida na
celebração litúrgica. Toda nossa celebração tende a ficar desvinculada da
realidade em que vivemos. Nossos cultos apontam para cima, falam de realidades
de cima e nos deixam completamente alienados do que ocorre “na base do
monte”. Esta visão também tende a
desconsiderar a diaconia e o serviço ao próximo, criando uma comunidade que não
considera as dores dos que nos rodeiam. Finalmente este tipo de abordagem tende
a aprisionar a congregação em um tipo de “triângulo da felicidade” no qual o
“bom cristão” é aquele que circula apenas entre a sua casa, sua igreja e seu
trabalho (ou escola). Todos os demais aspectos da vida cotidiana, inclusive os
legítimos, são desconsiderados, uma vez que nosso “modelo” não os vivenciou e,
portanto, não os legitimou. Optamos assim por uma vida sem prazer, sem alegria
e sem cultura. Teologicamente acabamos por recriar uma cristologia gnóstica ou
docética.
[1]
SESBOÜÍ, BERNARD Pedagogia do cristo:
Elementos de Cristologia Fundamental, p. 97
[2]
A. VON HARNACK em L’essenza del
cristianesimo, p. 157, citado por Rosino Gibellini em A
Teologia do Século
XX, p. 14
[3]
R. GIBELLINI A Teologia do Século XX,
p. 35
[4]
GRECH, PROSPER Problema Cristológico e a
Hermenêutica, artigo no texto Problemas
e Perspectivas em
Teologia Fundamental, p. 132
[5]
GRECH, PROSPER Problema Cristológico e a
Hermenêutica, artigo no texto Problemas
e Perspectivas em
Teologia Fundamental, p. 132
[6]
GRECH, PROSPER Problema Cristológico e a
Hermenêutica, artigo no texto Problemas
e Perspectivas em
Teologia Fundamental, p. 132
[7]
LEÖN, D.M. em Dicionário Teológico: O Deus Cristão, Verbete “Jesus
Cristo”, p. 486
[8]
LATOURELLE, R. Jesus Existiu?, p. 8
[9]
LATOURELLE, R Jesus Existiu?, p. 40
[10]
Citado por René Latourelle em
Jesus Existiu?, p. 41
[11]
TERRA, J.E.M. Jesus, p. 45
[12]
TERRA, J.E.M. Jesus, p. 45
[13]
LATOURELLE, R. No verbete “Jesus da história e Cristo da fé”, no Dicionário: Teologia Fundamental, p. 495
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